21/07/2017

Do mundo dos relvados para o mundo do sacerdócio

Philip Mulryne, antigo jogador de futebol do Manchester United foi ordenado padre em Dublin (Irlanda), no dia 8 de Julho, aos 39 anos. Natural de Belfast (Irlanda do Norte), Philip Mulryne integra a Ordem dos Pregadores (frades dominicanos).
A ordenação realizou-se na Igreja de St. Saviour, em Dublin, e foi presidida pelo Arcebispo dominicano Augustine Di Noia, membro da Congregação para a Doutrina da Fé. D. Augustine Di Noia aconselhou o ex-jogador a seguir exemplo do Bom Pastor, “que não veio para ser servido, mas para servir”.
O Pe. Mulryne foi descoberto pelo Manchester United aos 14 anos, quando jogava no clube da paróquia. Estreou-se no futebol inglês em 1997, pelo Norwich City e participou em 27 jogos pela selecção da Irlanda do Norte. Por acumular uma série de lesões e ter sentido um forte chamamento ao sacerdócio, decidiu deixar o mundo do futebol em 2008, regressando às suas origens.
Em 2013, quando recebeu o hábito dominicano, Philip Mulryne disse que seu objectivo era “ser completamente de Deus com a profissão dos conselhos evangélicos”. “Apesar de nossas faltas, sabemos que Ele nos transforma com a sua graça e, ao sermos transformados, podemos comunicar a alegria aos outros”.
Miguel Cotrim

17/07/2017

O Amigo do Povo esteve no Parlamento Europeu

O Amigo do Povo foi um dos 31 jornais centenários que estiveram em exposição no parlamento europeu, em Bruxelas, a 12 e 13 de Julho, numa iniciativa da Associação Portuguesa de Imprensa (API) juntamente com a Associação de Imprensa de Inspiração Cristã (AIIC) e a Associação das Artes Gráficas. Depois de teremos sido recebidos pelo Presidente da República no passado dia 25 de Abril, fomos, agora, ao coração da Europa para nos darmos a conhecer e fazer ouvir a nossa voz nesse tão importante centro de decisões.
A exposição foi montada num dos mais movimentados pontos de passagem do edifício principal e estiveram presentes vários eurodeputados portugueses. Também tivemos encontro com a comunidade portuguesa, na embaixada, e visitámos, ainda, o Comité Económico Europeu e a Comissão Europeia. Em todos esses encontros procurámos sensibilizar os responsáveis para a necessidade de valorizar e preservar a imprensa, especialmente a regional. Entre as reivindicações mais relevantes, está o pedido para que a imprensa deixe de ser taxada por uma tão alta percentagem de IVA (23%), passando a 6%, como é o caso dos livros.
Nesta exposição foi lembrado que existência destes jornais contribui para os valores da democracia e da liberdade. Para nós, católicos, isso é muito importante, pois também necessitamos dessa liberdade para nos pudermos exprimir e para anunciar a fé em Cristo. Não é por acaso que 8 dos jornais presentes na exposição eram jornais católicos, também eles com a sua história gloriosa de resistência aos tempos difíceis.
Pe. Orlando Henriques

16/07/2017

À SOMBRA DO CASTANHEIRO (16-07-2018)

– Como tem o Tio Ambrósio resistido a estas mudanças constantes das temperaturas? Tanto vem uma semana de calor escaldante, com tempo abafado, que é de a gente botar a língua de fora, como, logo a seguir, a temperatura desce meia dúzia de graus e vêm umas saraivadas que nos deitam a fruta toda no chão. Eu, graças a Deus, ainda não tenho grande razão de queixa. Mas aqui mesmo ao lado, em Chancas de Cima, o granizo deu prejuízos avultados, nomeadamente nas vinhas e nos alivais…
– Não somos nós que mandamos no tempo, Carlos! E há anos promissores, que, de um momento para o outro, se tornam em anos de míngua. Eu também me não posso queixar, por enquanto. Como vês, aqui o meu castanheiro está aí a prometer umas boas arrobas de castanhas. Por outro lado, aqui ao lado, a bica da água ainda não secou, o que é quase um milagre, porque toda a gente vai dizendo por aí que o nível dos poços baixou bastante, e alguns estão mesmo a secar. Eu ainda posso regar as hortaliças no quintal, além de ter criado cinco sacos de batata que, para mim, são mais que suficientes para o ano inteiro…
– Por vezes temos esta tendência a queixar-nos de tudo, Tio Ambrósio! Se temos muito, não somos capazes de escoar o produto e lamentamo-nos que não venha lá de cima um subsídio compensatório; se temos pouco, reclamamos umas linhas de crédito especiais para podermos repor, num futuro próximo, o que agora perdemos…
– A vida dos agricultores sempre foi muito dura e muito ingrata, Carlos! E ainda bem que agora as coisas mudaram de feição, e que aquilo que nós aqui produzimos nem sequer chega a contar para as estatísticas. Os nossos campos estão praticamente desertos e o que produzimos é para a nossa subsistência…
– Por isso é que os que tinham algum porte deixaram estes sítios e foram em busca de lugares onde a vida se possa levar com menos sacrifícios…
– Por vezes é um engano, Carlos! Mas temos que reconhecer que a maior parte dos que abandonaram as aldeias conseguiram uma vida mais desafogada e com outras regalias. Como me dizia há dias um afilhado meu, que teve que emigrar para se sentir realizado e poder educar os filhos, se ficasse aqui nunca teria passado da cepa torta. Agora tem um bom automóvel, uma casa equipada com tudo o que é necessário, e os filhos puderam estudar, e o mais velho já anda mesmo na universidade.
– Eu, felizmente, não tive necessidade de ir por esse mundo fora à procura de meios de subsistência. Também nunca tive desejos de grandezas, e, tanto eu como a minha família nos sentimos felizes com este tipo de vida simples que levamos. Deus não nos tem faltado com o necessário, e eu agradeço-Lhe esta vida calma e tranquila que nos tem proporcionado, a mim e aos meus. E o Tio Ambrósio também não o tenho visto queixar-se…
– Eu sou um homem pacífico e tranquilo, Carlos! No entanto acho que as nossas aldeias do interior, que é onde eu gosto de viver e onde me sinto feliz, têm sido muito esquecidas por aqueles que, sucessivamente, vão assumindo o poder, prometendo tudo fazer para o bem de todos e não apenas de alguns.
– Vem aí o tempo das promessas, Tio Ambrósio! Já não faltam três meses para as autárquicas e até me admira como é que os candidatos ainda não começaram a dizer que vão fazer isto e mais aquilo…
– Aqui no Cabeço nem sei se alguém se vai atrever a fazer oposição ao Liberato dos Santos, que tem sido um autarca exemplar e que toda a gente estima como bom cidadão que é, e como bom chefe de família.
– Então o Tio Ambrósio não está bem informado nesta matéria! Já está anunciada uma outra candidatura, mas constituída quase exclusivamente por achadiços…
– Não os conheço!
– Nem eu! Por isso é que são achadiços! Uns vivem em Lisboa, mas dizem que têm raízes cá na povoação, porque eram daqui os seus bisavós, ou os padrinhos de casamento de uma tia que já morreu; outros foram indigitados pela força política que os apoia, mas nunca ninguém os tinha visto nem mais gordos nem mais magros; e um terceiro elemento é neto de um emigrante que, aqui há mais de quarenta anos rumou para França em busca de melhores condições de vida. Mas foi e nunca mais voltou…
– Não vejo nenhuma razão plausível para não concorrerem! Qualquer cidadão no pleno uso dos seus direitos cívicos pode candidatar-se…
– Se tiver quem o apoie, Tio Ambrósio! As candidaturas precisam de um mínimo de assinaturas de cidadãos residentes, o que não sei se acontece no caso de que estamos a falar. De qualquer modo, eu estou certo que a candidatura independente do Liberato vai conquistar uma maioria absoluta de votos, até porque toda a gente sabe que o nosso autarca não fica com um único cêntimo do pequeno ordenado que aufere como Presidente da Junta. Tudo o que vier é gasto em benefício de todos os cidadãos, sendo de louvar o arranjo que, com esse fundo, foi dado à casa da Tia Maria Benedita, que tinha o telhado, as portas e as janelas em condições muito precárias.
– Já sabia desse gesto de generosidade do Liberato, e até um dia, à saída da Missa, lhe dei um abraço e o incentivei a continuar por esse caminho de serviço à nossa terra…
– Mas não pense que são todos assim, Tio Ambrósio!
– Nem é obrigatório que sejam, Carlos! Se está estabelecido que estas funções sejam remuneradas com um vencimento, grande ou pequeno não importa, quem as ocupar tem toda a legitimidade de arrecadar o que lhe pertence. Mas isso não tira nada ao gesto meritório, e cheio de altruísmo, do Liberato. De resto há homens bons em toda a parte! E aqui no Cabeço é já uma tradição os autarcas encararem os seus mandatos como um serviço e não como uma fonte de lucro. O Manuel Lopes, que é considerado um dos dinossauros do poder autárquico, nunca se serviu da Junta para seu lucro pessoal…
– Isto de viver no Cabeço e sentir o Cabeço é diferente, Tio Ambrósio!
– Diferente para melhor, Carlos!

15/07/2017

A ousadia que faltava

Concelebrei na Missa solene da festa da Rainha Santa Isabel, em Coimbra, no passado dia 4, às 11h00, e, no final da Missa, foi surpreendido (fomos todos!) por palavras corajosas como já há muito tempo não ouvia.
Tomando a palavra, o presidente da Confraria da Rainha Santa Isabel, António Rebelo, entre outras coisas que disse, manifestou a sua indignação pelo facto de àquela mesma hora da Missa principal da festa, se estar a realizar na Câmara Municipal a sessão solene do dia da cidade, o que acontecia pelo segundo ano consecutivo, constituindo uma desconsideração à padroeira da cidade e impossibilitando alguns vereadores de estarem presentes naquela Missa. Foi um momento impressionante: como o povo, exultante de alegria e de concordância com aquele protesto, começasse a dar sinais de que ia desabar numa salva de palmas, António Rebelo conteve, eficaz e imediatamente, a avalanche de aplausos dizendo que não os queria porque sentia que fazer aquele protesto não era mais do que a obrigação de quem quer que exercesse a função de presidente da Confraria. Também gostei de o ouvir dizer que aquela sua manifestação nada tinha a ver com cores políticas e que a faria igualmente qualquer que fosse o partido do executivo camarário.
Foi uma lufada de ar fresco ver na nossa Igreja alguém com coragem para dizer o que tem que ser dito. E, para mais, um leigo. A Igreja actual não pode viver no medo: é muito mau se ninguém reage, se ninguém diz nada, se ninguém pia… enquanto vão avançando, progressivamente, os abusos contra a fé e contra os valores cristãos. Houve mobilização e luta contra o fim dos “contratos de associação” das escolas privadas (com forte apoio da Conferência Episcopal, já que estavam em causa escolas da Igreja); falta haver a mesma mobilização (ou ainda maior) contra a eutanásia, o aborto, as barrigas de aluguer, os mais diversos atentados à família e à presença e liberdade da Igreja na sociedade.
Pe. Orlando Henriques

09/07/2017

À SOMBRA DO CASTANHEIRO (09-07-2017)

– Tornamos a ter aí um tempo de calor, que é de um homem suar em bica. Mas é o tempo dele. Não é, Carlos?
– Venho mesmo a transpirar por todos os poros, Tio Ambrósio! E, pelo caminho, vinha a pedir a Deus que nos livre de uma tragédia semelhante à que nos atingiu há três semanas atrás. Um dia destes, na companhia do meu cunhado Acácio, passei por algumas das localidades mais atingidas pelo incêndio, parando num dos pontos mais altos, de onde se pode observar aquela extensa zona de mata, que agora ficou integralmente reduzida a cinzas. Eu sei que o mais penoso foi a perda de sessenta e quatro vidas humanas. Mas essa dor que não passa é agravada pela mudança da paisagem que, de verde de várias tonalidades, passou ao luto do preto e da cinza. É um grande desconsolo para a alma, Tio Ambrósio!
– Eu vou ficar aqui no meu canto, não a recordar a vicejante paisagem, mas a chorar os que ali perderam a vida. Podem procurar todas as explicações para o sucedido e empurrar as culpas de uns para os outros, que isso pouco ou nada me importa. É certo que quase todos agora se mobilizam para cuidar dos vivos e dos seus haveres, e eu próprio, na medida das minhas posses, já dei para isso o meu pequeno contributo. Mas ninguém me pode levar a mal que eu continue a lamentar o que aconteceu aos que perderam a vida e a chorar lágrimas de sal por irmãos meus de sangue que nunca pensaram na vida que os esperaria um fim tão triste e tão trágico como este. Passados todos estes dias, quando me levanto, pela manhã, e dou graças a Deus por esta graça tão grande de me conservar a vida, não consigo evitar uma lágrima furtiva por aqueles que, numa noite fatídica, perderam o direito a realizar os seus sonhos. Tanto se me dá que a causa do sinistro tenha sido um fenómeno natural, como alguns continuam a defender, como tenha tido na sua génese uma maléfica intervenção criminosa. Se a primeira hipótese nos traz o consolo de pensarmos que do crime estão libertas as consciências humanas, nem uma nem outra nos apagam da memória a tragédia, o horror e possivelmente o desespero a que se viram sujeitos os nossos irmãos e irmãs que pereceram.
– Eu sei que vai demorar muito a passar o tempo de luto, não apenas para os familiares, como para todos os que viveram a tragédia por dentro, ou mesmo para aqueles que, como eu e como o meu cunhado Acácio, por ali passámos para nos inteirarmos da extensão da tragédia. Aquilo é pesado de mais, e o negrume é tanto, que não é possível, em meses ou mesmo em anos, passar-lhe uma esponja por cima e pensar que, com as pequenas medidas agora tomadas, a tragédia não voltará a acontecer. Tudo o que se tem feito apenas serve para aliviar as penas de algumas consciências…
– Não, Carlos! Eu sei que alguns dos habitantes dos lugares mais atingidos já tomaram e executaram a decisão de arrancar todos os eucaliptais que, entre outras circunstâncias, foram a causa, se não da origem, pelo menos da extensão deste horroroso sinistro.
– Eu penso que, infelizmente, esse apreciável propósito vai ser esquecido em poucos meses. Isto tanto por parte dos proprietários particulares, como do governo que, agora, numa operação plástica de última hora, veio afirmar que não haverá mais autorização para plantar um único eucalipto em Portugal. Olhe a grande novidade, Tio Ambrósio! Nem isso é preciso! Basta cortar os que agora arderam para rebentarem com mais força e serem multiplicados por três! Infelizmente, o que preocupa a maioria das pessoas é o lucro fácil e rápido! Se quer um exemplo, posso dizer-lhe que tenho um compadre que, até há bem pouco tempo, nas conversas que tínhamos quando nos encontrávamos na feira dos 23, era um defensor acérrimo do plantio de espécies menos inflamáveis, nomeadamente o castanheiro, o sobreiro, o carvalho e o plátano. Mas depois veio um vizinho, que tem estado emigrado, que resolveu deitar abaixo o pinhal, que já era bem nocivo, arrotear os terrenos e plantar um eucaliptal que, passados menos de dez anos, deu um corte de madeira para a celulose. Tudo bem pago, em dinheiro vivo. Perante isto, esse meu compadre nem pestanejou! Transformou os pinheiros em euros, que deram e sobraram para lavrar os pedregais e fazer a plantação de eucaliptos que, como ele me diz, vão ser o complemento da sua reforma…
– Infelizmente, somos muito curtos de vista, Carlos! Só sabemos planear o dia de hoje e, quando muito, o dia de amanhã. Deixámos de ter paciência para ver mais longe, para pensarmos no futuro daqueles que vêm atrás de nós.
– Esse meu compadre, quando eu lhe quis fazer ver uma série de coisas, até chegou a chamar-me burro, o que para mim não é nenhum insulto, pois simpatizo imenso com esse animal que, como vossemecê se lembra, tem sido meu companheiro nos meus sonhos de Natal. E um bom companheiro, diga-se em abono da verdade. Neste capítulo estou como o mestre Gil Vicente que, na Farsa de Inês Pereira, colocou na boca de uma das suas personagens aquela frase emblemática: “mais vale asno que me leve, do que cavalo que me derrube”.
– E que te disse esse teu compadre na feira dos 23?
– Que a vaca deve ser ordenhada enquanto o leite não secar! Isso de guardar para o dia de amanhã foi uma tolice inventada por uns velhotes que se armam em filósofos…
– Essa não é para mim, Carlos!
– Olhe que não sei, Tio Ambrósio! Vinda de onde veio, é bem possível que vossemecê seja um dos velhotes visados. Mas, se for, não se importe, porque para palavras loucas, orelhas moucas!
– Assim tenho eu feito sempre ao longo da minha vida. E espero que Deus continue a dar-me juízo e entendimento para me aguentar firme nesta posição que, se outro mérito não tivesse, é fundamental para eu me sentir em paz com a minha consciência.
– E já não é pouco, Tio Ambrósio!

08/07/2017

Entre a vida e morte

No final de cada mistério do terço, rezamos a jaculatória: “Ó meu bom Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno/ e levai as almas todas para o céu, principalmente as que mais precisarem”. Foi ensinada por Nossa Senhora aos pastorinhos de Fátima, na aparição de 13 de Julho, com a recomendação de que a rezassem sempre no final de cada mistério do terço.
Mas, afinal, que “almas” são estas? Serão as almas dos que morreram, as almas do purgatório? Se não sabia, então surpreenda-se: esta oração não é pelos defuntos! Pelo contrário, é pelos que estão bem vivos! Sim, nós, os vivos, é que somos as almas que precisam de ser livres do inferno, nós pecadores que andamos aqui, sobre esta terra. Por isso, se pede a Jesus para levar para o céu os “que mais precisarem”, isto é, os pecadores mais fechados ao arrependimento e à conversão, em maior perigo de condenação. Esses sim, estão entre a Vida e a morte; nesta vida terrena é que se decide o nosso futuro de Vida eterna ou morte eterna.
Durante muitos anos, divulgou-se uma versão errada desta oração, em que se dizia “aliviai as almas do purgatório, principalmente as mais abandonadas”. Embora seja uma obra de misericórdia contribuir para diminuir a pena das almas do purgatório, elas já estão salvas, é só uma questão de repararem o mal que fizeram em vida para, de seguida, entrarem no céu. Mas para quem ainda vive nesta terra está tudo em aberto… Portanto, é muito mais urgente e importante rezar por aqueles que ainda podem vir a condenar-se! Seria muito pouco que a Virgem Santíssima se dignasse descer a esta terra só para nos mandar rezar por pessoas que já estão salvas. Porque o pecado é a pior morte, que nos conduz à morte eterna, Fátima é uma mensagem de conversão, de luta contra os vícios e de oração e sacrifício solidários pela conversão dos pecadores.
Padre Orlando Henriques

02/07/2017

À SOMBRA DO CASTANHEIRO (02-07-2017)

– Como vão as coisas pelo Cabeço, Carlos? Parece-me que te vejo um pouco abatido e acabrunhado! Certamente terás razões para isso…
– Para isso e muito mais, Tio Ambrósio! A vida, numa aldeia como a nossa é feita de alegrias e tristezas. Por vezes, mais de tristezas do que de alegrias. É só repararmos em tudo o que tem acontecido nestes últimos tempos. A tristeza foi tamanha que, este ano, até suspendemos a celebração das festas populares do São João e do São Pedro. Eles que nos perdoem, se estavam à espera de fogueiras e de cantigas, mas, perante a catástrofe dos incêndios nos vizinhos concelhos de Pedrógão, da Castanheira, de Figueiró, de Góis e da Pampilhosa não nos puxa o corpo para a folia…
– Temos grandes razões para mostrarmos a nossa imensa tristeza, Carlos! Bastaria que se tivesse perdido apenas uma vida humana para termos a nossa alma a chorar! Mas foram sessenta e quatro pessoas que pereceram nesse incêndio monstruoso, o que nos veio deixar no mais profundo silêncio e na mais pesada amargura. Eu ainda hoje não consegui acordar bem para a realidade, parecendo-me que um drama destes só pode ter sido mentira…
– Era bom que tivesse sido apenas um sonho mau, um pesadelo, daqueles que nos fazem acordar a meio da noite. Mas não, Tio Ambrósio! A foice vermelha, desta vez ceifou mesmo sessenta e quatro vidas humanas.
– E a quem devemos assacar as culpas para tal tragédia, Carlos?
– Se calhar isso nem é o mais importante, Tio Ambrósio! Já tenho ouvido e visto os mais diversos comentários acusatórios, apontando o dedo à incúria desta ou daquela entidade, mas isso agora não vem remediar nada. As vidas humanas que se perderam são sagradas, são demasiado importantes para agora andarmos a pretender saber se a causa esteve neste descuido ou na incompetência dos que deviam ser responsáveis. Nada disso vai fazer regressar a esta vida aqueles que a perderam de modo tão trágico.
– Temos que acautelar o futuro, Carlos! Este desastre tem que servir de lição a todos nós para que não venha a repetir-se nunca mais! No meu entender, há alguns mais culpados que outros. Mas, no fundo, todos temos a nossa quota-parte de responsabilidade. Todos nós fazemos asneiras enormes em relação ao ambiente. Como vês, eu aqui em volta da minha casa tenho tudo mais ou menos limpo, pois roço as silvas duas ou três vezes por ano. Mas isto são apenas dois palmos de terra. Por isso, eu entendo que é muito difícil a quem tenha terrenos maiores, aqui no meio das montanhas, fazer o que eu faço no meu bocadinho. E depois acontece que a maioria das pessoas já nem vive aqui nas nossas aldeias. Foram procurar lugares onde tenham melhores meios de vida…
– Tudo isso é verdade, Tio Ambrósio! O Cabeço, nestes últimos trinta anos, perdeu mais de metade da sua população. E há aldeias em piores circunstâncias do que a nossa. Onde estão os rebanhos que, antigamente, espontavam as carquejas e não deixavam crescer a erva nos montes? Onde estão as terras agricultadas com estrume que se fazia a partir do mato torgueiro ou mesmo do tojo, da magorice e da queiró? Onde estão os batatais que, depois de semeados, eram cobertos por uma carrada de caruma que se espalhava antes da primeira rega? Onde estão os ranchos de rapazes e raparigas que, por esta altura do ano, iam buscar sacos e sacos de pinhas para acender o lume no inverno?
– Tudo isso lá vai, Carlos! E hoje o que temos são matagais enormes, onde ninguém é capaz de penetrar, até porque se deixaram perder os caminhos e os carreiros. A maioria dos chamados proprietários nem sabe onde estão os marcos que dividem as suas testadas com as dos vizinhos.
– Então há muito que mudar para termos maior segurança, Tio Ambrósio! E não basta, no meu entender, fazerem-se novas leis de carácter repressivo…
– Deixemos essa discussão para outra altura, Carlos! Tu disseste-me que a vida numa aldeia é feita de tristezas e também de alegrias. Esta foi uma grande e amarga tristeza. E também houve alguma alegria?
– Podemos dizer que sim, Tio Ambrósio! Pelo menos para nós, os crentes! Aquela ordenação de dois novos padres e quase dúzia e meia de diáconos permanentes, no passado Domingo, em Coimbra, não deixa de ser uma boa notícia, que se deve registar, até porque alguns dos novos ministros sagrados são nossos conhecidos dos cursos de catequese de adultos e de outras actividades ligadas à vida da Igreja.
– Tu foste lá participar nessa cerimónia?
– Por acaso não fui. Mas o Liberato foi lá, e contou-me que tinha sido um ritual que lhe encheu as medidas, porque a Sé Nova estava à pinha, e via-se no rosto dos fiéis a alegria de verem aquele grupo de homens bons e de comprovada virtude a serem ordenados para o serviço da Igreja Diocesana. Quando estamos tão carecidos de gente que se entregue, de alma e coração, ao serviço do Evangelho, é para darmos graças a Deus por estes dons que nos vai concedendo…
– Eu também fico muito feliz com esse acontecimento, e até tenho pena de não saber da ida do Liberato, porque lhe teria pedido para me levar. Gosto de ver esses acontecimentos com os meus próprios olhos…
– Quem vai a Coimbra nestes próximos dias é o meu cunhado Acácio! Eu penso que ele até já foi ontem e vai hoje e amanhã, porque a Ermelinda é muito devota da Rainha Santa e costuma sempre participar no tríduo de preparação para a festa, que é depois de amanhã. Se quiser, pode aproveitar…
– Ao tríduo já me custa bastante, Carlos! É à noite e a vista já não me ajuda. Mas ainda vou pensar nisso e, pelo menos na Missa da festa, espero estar em condições de participar, até porque é feriado em Coimbra. E que não fosse! Até tu podias ir também, porque eu vou muito bem com o Acácio. Mas estou mais habituado contigo…
– Está bem! Vou ver se arrumo a minha vida a tempo de o acompanhar…
– Quando um homem quer, tudo se faz!
– Eu depois digo-lhe alguma coisa, Tio Ambrósio!
– Fico a contar, Carlos!