17/12/2017

AO CALOR DA FOGUEIRA (17-12-2017)

– Bendito seja Deus que nos mandou dois dias de chuva! Ainda não chega para as necessidades, mas é já uma boa ajuda, porque estava tudo seco, Tio Ambrósio! Olhe que até para apanhar o musgo para o presépio idealizado pela minha pequena tive que correr montes e vales. Isto é um modo de dizer, porque no pedaço de pinhal que sobrou dos incêndios encontrei mais que o necessário…
– Eu também já montei o meu, Carlos! Uma coisa muito simples, mas a que eu atribuo grande significado. Uma cabana construída com duas pedras e uma laje a servir-lhe de cobertura, sem luzes de várias cores. A iluminação é feita com uma simples lâmpada de azeite. E este ano optei por não colocar nem a vaca nem o burrinho, porque os incêndios deram cabo dos pastos…
– O Tio Ambrósio está a usar uma linguagem muito figurada. Os animais que colocamos nos nossos presépios não precisam de forragem…
– Mas precisam os outros, Carlos! E olha que não tem sido fácil para muitos pastores encontrar alimento para os seus rebanhos. O que tem valido a muitos é a grande solidariedade que se gerou em algumas regiões do país, que enviaram toneladas de pasto para os locais mais atingidos por este flagelo que tão cedo não vai abandonar as nossas cabeças.
– A pouco e pouco tudo vai regressar ao normal. Por isso, no presépio lá de casa há muitas luzes, muita gente a passar pelos caminhos, e muitos animais, desde um cão que guarda o rebanho das ovelhas, até ao galo que, colocado no cimo de um telhado de xisto, acorda todo o povoado logo pela manhã…
– E nem vaca nem burro, Carlos!
– Já lá vamos, Tio Ambrósio! Por causa do burro é que eu, este ano, tive que voltar ao presépio. Estou a falar do presépio verdadeiro, daquele em que a Puríssima Virgem Maria deu à luz “Aquele que, por nós homens e para nossa salvação, desceu do Céu”…
– Voltaste a ser brindado com a graça de mais um sonho natalício! És um rapaz cheio de sorte! Conta-me cá como tudo aconteceu!
– Aconteceu como das outras vezes, Tio Ambrósio! Como ao burro de barro do nosso presépio já faltava uma das orelhas, a minha pequena não se calava, dizendo à mãe para comprar um burro novo, porque havia deles à venda na loja do Sanguessuga. E tanto clamou que, já ao anoitecer, eu tive que pôr os pés ao caminho e ir comprar o animal ao Manuel das Chagas. Deve ter sido por isso que, nessa noite, mal me estendi na cama, adormeci que nem um justo e, passados momentos, estava a sonhar com um burro de verdade, que alguém, de quem já nem o nome me lembro, tinha deixado ao meu cuidado para, na noite de Natal, levar ao presépio de Belém, porque tinha nascido ali um Menino muito pobre, que precisava do bafo quente de um jerico e de uma vaca, para não tiritar de frio.
– E tu montaste no burro, e aí vais, todo janota, até onde o sonho te quis levar…
– Mais ou menos isso, Tio Ambrósio! Mas como a figura dos meus sonhos me falara também de uma vaca, resolvi passar pelo meu estábulo e levar a Malhada, que é mansa como a terra. Não me pergunte por onde passei, nem que caminhos percorri, porque a lembrança que tenho a seguir é a de, montado no jerico e com a Malhada à soga, ter chegado a um terreiro, onde me aguardava um homem vestido com uma túnica castanha e que, fazendo-me sinal para eu parar, me perguntou se era eu o senhor Carlos do Cabeço. Saltei do burro e, como quem se apresentava para cumprir uma missão importante, disse que sim, ao que ele me respondeu, numa voz muito pausada, mas firme, que fora ele mesmo a requisitar os meus serviços, porque lhe haviam dito que sou uma pessoa sempre pronta a ajudar os pobres e desvalidos. Depois estendeu-me a mão calejada e fez a sua apresentação. O seu nome era José, carpinteiro de profissão, e tinha vindo a Belém para se recensear com a sua jovem esposa que, tendo chegado o seu tempo, se vira na necessidade de dar à luz num local muito pobre, por não haver lugar na única hospedaria da pequena cidade. Com frio que estava, a presença dos dois animais era fundamental, constituindo como que um aquecimento central para o acanhado apartamento.
– Mais propriamente um curral!
– Eu não queria usar esse termo para designar o local onde nasceu o Filho de Deus e da Virgem Santa Maria. Mas o Tio Ambrósio tem razão. Aquilo era mesmo um curral nos arredores da pequena cidade, onde os pastores, em noites de maior invernia, abrigavam os seus rebanhos.
– E depois das apresentações, entraste lá dentro…
– O Patriarca José, com uma alanterna de azeite, foi à frente para indicar o caminho. Eu fui atrás com a Malhada, que parece que até já conhecia o local, pois foi logo deitar-se ao lado do Menino deitado nuns paninhos simples que cobriam um molho de feno que, à falta de melhor, servia de berço. Logo o animal começou a desempenhar a sua função, aquecendo com o seu bafo os pezinhos do Divino Infante, que, numa noite daquelas, deviam estar mais que gelados. Depois, aos poucos, o curral foi ficando iluminado, com uma luz tão suave, que eu não consegui imediatamente identificar de onde vinha. De qualquer modo, aquela claridade permitiu-me ver as feições belíssimas da jovem Mãe, que estava de joelhos e de mãos postas, numa atitude de pura contemplação diante do mistério daquele Menino.
– E tu, Carlos?
– Eu senti um impulso irresistível de cair com ambos os joelhos por terra e tentei imitar a Virgem Maria, enquanto o jerico se foi colocar do outro lado do Menino, colocando por terra, primeiro as patas dianteiras, e depois também as detrás, deixando, nesse acto, escapar um pequeno sinal sonoro. Arregalei os olhos e logo reconheci o Fogueteiro, o meu companheiro de vigílias semelhantes em anos anteriores. Fiquei contente, porque vi que, ao lado do burro, estava com a minha gente!
– E depois?
– O que veio a seguir irei contar-lho na próxima semana, que é mesmo no dia da Consoada. Virei buscá-lo a tempo, e se formos a pé, iremos conversando pelo caminho. Pode ser?
– Pode, Carlos! Vai lá com Deus!

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