30/04/2017

AO CALOR DA FOGUEIRA (30-04-2017)

– Não sei se o Tio Ambrósio quer ir connosco a Fátima agora pelo 13 de Maio. O Cabeço vai ficar praticamente deserto, e posso dizer-lhe que as pessoas, na sua maioria, vão fazer a sua peregrinação a pé.
– E fazem muito bem, Carlos! Eu, nestas circunstâncias, fico na retaguarda, porque não me sinto com forças para me meter em tais confusões! Aquilo vai ser um mar de gente, Carlos! E eu gosto muito de visitar o Santuário, e sobretudo a Capelinha das Aparições, mas tem que ser em dia de menos aperto, em que eu possa fazer umas horas de verdadeiro silêncio, porque essa é uma circunstância absolutamente necessária para poder ouvir a voz de Deus.
– Eu também não irei, Tio Ambrósio! Mas não fui capaz de convencer a minha Joana a ficar em casa com os pequenos. A Ermelinda e o Acácio vão três dias antes, para fazerem todo o caminho a pé, juntando-se a um grupo da nossa paróquia que, com outras pessoas do arciprestado, organizaram muito bem toda a peregrinação, com momentos de leitura e meditação da Palavra de Deus, com a reza do rosário e com tempos de descanso já determinados.
– E tu não alinhaste com o Acácio? É para admirar!
– Por um lado eu devia acompanhar a Joana e os pequenos, porque a peregrinação em família tem um sentido mais evangélico. Quando tinha doze anos, Jesus também foi, com Maria e José, em peregrinação a Jerusalém, e até parece que as coisas não correram lá muito bem, porque se perderam uns dos outros, e a Virgem e o Patriarca viram-se às aranhas para reencontrarem o filho.
– Mais um motivo para ires, Carlos!
– É verdade, Tio Ambrósio! Mas eles vão de autocarro alugado pelo Liberato que me avisou a tempo para eu me inscrever. O certo é que eu fui deixando passar as semanas e, quando procurei o nosso autarca para me inscrever com os meus, confrontei-me com a resposta de que já só dispunha de três lugares. Ainda havia a hipótese de ir com o meu pequeno meio de transporte. Mas logo pensei que aquilo vai ser uma barafunda, e o melhor é ir lá daqui a uns tempos, quando as estradas estejam mais desimpedidas. Comuniquei isto mesmo em plenário familiar, e a Joana disse-me que, se não fosse no autocarro, iria a pé com a irmã e os outros devotos do Cabeço. Para não levantar uma tempestade num copo de água, perguntei se queria ir com os filhos agora, para verem o Santo Padre e a cerimónia da canonização do Francisco e da Jacinta, e depois, lá mais para diante, voltaríamos para rezar em família com maior sossego. Foi o que os pequenos quiseram ouvir, de modo que eu logo fui a casa do Liberato para inscrever três pessoas, pedindo-lhe que me tratasse os meus como se fossem família sua.
– Já vi que preferes, tal como eu, ver estas coisas cá mais de longe…
– Mas com o coração lá, Tio Ambrósio! Vossemecê sabe que eu sou um devoto da Virgem Maria, embora pequeno, pobre e sem méritos…
– Também me incluo nesse número, Carlos! Vou ficar aqui em corpo, mas o meu coração e o meu espírito vão estar lá a agradecer a Deus os muitos dons que nos tem concedido sempre, e nos concede especialmente nesta hora. Porque estes acontecimentos são verdadeiros dons que nos chegam por graça de Deus. Eu diria que nós, os cristãos de Portugal, deveríamos louvar o Senhor por muitos motivos, mas agora especialmente por três circunstâncias que se congregam no sentido de os olhos dos cristãos de todos os continentes e dos homens e mulheres tementes a Deus se voltarem para Fátima que, não sendo o centro da cristandade, tem vindo aos poucos a tornar-se o altar do mundo, como se escreveu aquando da visita do Papa Paulo VI ao santuário em 1967…
– Eu ainda era pequeno. Mas o Tio Ambrósio, dessa vez, estava lá para ver com os seus olhos o Santo Padre…
– Certamente já te falei, por várias vezes, desse momento especial da minha vida, pois considerei para mim uma grande graça poder estar ali a meia dúzia de metros do Papa de Roma. Depois tive a oportunidade de apertar a mão de outro Papa, o nosso querido São João Paulo II, quando este, em 1982, passou por Coimbra, tendo falado aos fiéis no estádio municipal e aos estudantes e intelectuais no pátio da Universidade. Foi uma grande festa!
– E agora não vai ser mais pequena, Tio Ambrósio! E, pelo facto de vossemecê e eu não podermos estar presentes em corpo, não quer dizer que não vamos juntar-nos às centenas de milhar de fiéis que, sob a presidência do Papa Francisco, vão estar em Fátima a pedir a Deus, por intercessão de Nossa Senhora e dos novos santos Francisco e Jacinta, que conceda ao nosso tempo o precioso dom da paz.
– Dom esse que só se conseguirá verdadeiramente através da penitência, da oração e da conversão dos corações humanos aos princípios do Evangelho…
– É aí que reside o núcleo fundamental da chamada Mensagem de Fátima. Não é, Tio Ambrósio?
– É, Carlos! E penso que será isso que, uma vez mais, nos irá recordar o Papa Francisco nas palavras que dirigir aos peregrinos e, através deles, a todos os cristãos do mundo inteiro e a todos os homens e mulheres de boa vontade.
– Eu prometo que irei ouvir com toda a atenção, Tio Ambrósio! E até me apetecia fazer-lhe uma proposta. Se vossemecê quiser venho buscá-lo para minha casa para, nesse sábado, assistirmos pela televisão a todas as cerimónias de Fátima presididas pelo nosso Santo Padre, o Papa Francisco…
– Também podemos ver aqui em minha casa, Carlos!
– Eu só sugeri a minha, porque os pequenos me obrigaram a comprar um televisor com maiores dimensões…
– Nesse caso, aceito, Carlos! Mas com um pedido e um compromisso, que é o de fazermos silêncio, porque tu já sabes que eu gosto de me concentrar, de interiorizar as coisas, de viver estes acontecimentos por dentro…
– Porque é que nós os dois somos tão parecidos, Tio Ambrósio?
– São muitos anos a conviver, Carlos!
E também por isso nós devemos dar graças a Deus!
– Assim seja, Tio Ambrósio!

20/04/2017

Mais do que coisas, mas menos do que pessoas

Assistimos, actualmente, na nossa sociedade, a uma tentativa cada vez maior de igualar os animais ao ser humano. Nós, católicos, sabendo que Deus criou o homem “à Sua imagem e semelhança”, continuamos a declarar firmemente a superioridade do homem em relação aos animais.
É certo que os animais não devem ser maltratados, e deve haver leis nesse sentido. Afinal, qual é a nobreza humana de alguém que trata mal os animais? A não ser matando para fins legítimos segundo a ordem da natureza, em especial a alimentação, tratar mal um animal é, de algum modo, desumanizar-se a si mesmo.
Mas, por outro lado, querer dar ao animal um estatuto de “pessoa” é também desumanizar o homem. Mais: é desdivinizar o homem! Na verdade, todas as teorias que com que, hoje, procuram convencer-nos de que os animais são como nós, só têm um objectivo: destruir a fé de que o homem é um ser superior, com uma alma imortal, criado à imagem de Deus. Todas as tentativas de exaltar os animais de modo a conferir-lhes uma dignidade semelhante à do homem são armadilhas de ateus para nos transformar numa sociedade de ateus. Porque se nós fôssemos iguais aos animais, então não teríamos alma imortal, toda a dimensão espiritual não passaria de psicologia e não haveria vida eterna com Deus. “Mas os animais também têm sentimentos!”, dirá alguém. Sim, pois têm, porque também têm uma parte psicológica; mas não é o termos sentimentos que faz a nossa dignidade. Mal de nós se a dignidade humana se fundamentasse no simples facto de termos sentimentos! Há algo mais, que é o que distingue “alma” e “espírito”: para além do corpo, e da “alma” (entendida como dimensão psicológica, diferente da Alma Imortal), temos o Espírito, ou “Alma Imortal”. E essa Alma é que Deus deu ao homem e não aos animais. É o que nos permite conhecer a Deus e orientar-nos para Ele. Gostamos muito dos animais e queremos ver punido quem os maltratam de forma absurda; mas há em nós uma centelha divina que nos torna diferentes deles.
Pe. Orlando Henriques

AO CALOR DA FOGUEIRA (23-04-2017)

– Entra, Carlos! É sempre uma alegria receber-te nesta minha humilde choupana. E a alegria é muito maior quando a visita constitui quase uma surpresa. Pois eu tinha percebido que hoje irias dedicar o dia inteiro à família, se calhar até com uma saída para fora…
– Tem toda a razão, Tio Ambrósio! Só que as coisas, por vezes, não correm como a gente tinha planeado. Há sempre aqueles imprevistos que, de um momento para o outro, mudam quase radicalmente o rumo dos acontecimentos.
– Só um motivo grave te levaria a não dares o teu costumado passeio com a família neste Domingo de Pascoela…
– Eu até costumo ir à Senhora da Alegria, acompanhado da Joana e dos pequenos. E, habitualmente não vamos sozinhos, pois o meu cunhado Acácio mai-la Ermelinda, o Liberato mai-la esposa, que agora é a primeira-dama do Cabeço, e o nosso antigo presidente da Junta, o Manuel Lopes, acompanhado também da respectiva consorte, vão todos em romaria. Costuma ser um domingo bem passado, com um lanche reforçado com aquelas coisas que nos fazem mal, segundo dizem os doutores, mas que sabem bem que se fartam. Por isso, hoje não contava muito ter a oportunidade sempre grata de estar consigo, para ouvir os seus avisados conselhos e para darmos um bocado à língua sobre tudo o que vai acontecendo à nossa volta.
– Então diz-me o que se passou de tão grave que te impediu essa devota peregrinação pascal à Senhora da Alegria…
– O Tio Ambrósio sabe que o homem põe e Deus dispõe. E sabe também que há coisas que não escolhem data para acontecer…
– Algum falecimento repentino, desses que agora estão na moda, que a gente nem chega a ter tempo para respirar e ver que a realidade ultrapassa sempre o nosso desejo e a nossa vontade…
– Pelo contrário, Tio Ambrósio! Foi um nascimento!
– Estás a deixar-me baralhado…
– Eu conto-lhe como tudo se passou! O nosso amigo Asdrúbal deu-lhe agora, quando os anos já começam a pesar, para investir um dinheirito na compra de duas vacas de criação. Ele tinha uns milhares de euros no banco e, quando lá foi para renovar a conta, ofereceram-lhe um juro que lhe daria penso que menos de uma dúzia de euros…
– Agora a nossa banca está assim, Carlos! Esses administradores de meia tigela que estiveram à frente das instituições de crédito, além de incompetentes, foram, em boa parte dos casos, uns malandros da pior espécie que meteram ao bolso quanto puderam, enviando contas avultadas para bancos no estrangeiro e para paraísos fiscais…
– Eles, cá no meu entender, não foram incompetentes. Foram sim larápios da pior espécie. Mas, adiante, que estamos em tempo pascal, e é melhor falarmos de coisas mais agradáveis. Como lhe dizia, o amigo Asdrúbal, depois de levantar tudo o que tinha no banco, resolveu comprar duas vacas turinas, de modo a poder tirar algum lucro das crias. E acontece que um dos animais resolveu entrar em trabalho de parto precisamente esta noite. Ele foi logo a correr para chamar o alveitar da Carrapichana, mas ele tinha ido passar estes dias da Páscoa com uma filha que tem em Lisboa. E vai daí apareceu-me de manhã, quando a Joana tinha já o farnel no cesto e os pequenos não sossegavam um minuto, a pedir-me, por amor de Deus, que fosse ajudá-lo neste trabalho, que era uma esmola grande que lhe fazia…
– E tu nem pensaste duas vezes!
– Em casos destes nunca sou capaz de dizer que não, Tio Ambrósio! Pedi à Joana que fosse com a irmã e com os pequenos que eu lá iria ter com eles logo que a turina se despachasse. Mas o caso estava complicado e vimo-nos à nora para ajudar a vaca a pôr cá fora a sua cria…
– Mas conseguiram!
– Com horas extraordinárias, Tio Ambrósio! Mas digo-lhe que é sempre uma coisa linda a gente ver um bezerro sair do ventre da mãe, a tentar levantar-se e esta, exausta, a lamber-lhe o pelo…
– E depois é preciso ensinar a cria a procurar os tetos da mãe…
– Quase sempre, Tio Ambrósio! Mas este foi tiro e queda. Mal o Asdrúbal pegou nele ao colo e o colocou junto da turina não teve qualquer problema em chegar à teta e começar a mamar, como se tivesse nascido há já meia dúzia de dias.
– Milagres da natureza, Carlos! Esse era um dos serviços em que eu colaborava com gosto, sempre na presença de um alveitar. Tivemos aqui em Chancas um muito entendido, o Sebastião das Vacas. Já não te lembras dele, pois não?
– Não, Tio Ambrósio! Mas o importante é que resolvemos o caso de modo satisfatório…
– Não foi o dia mais conveniente, mas estas coisas não se podem planear e, muitas vezes exigem que façamos horas extraordinárias…
– E sabe que o Asdrúbal ficou-me tão reconhecido que me queria pagar um dia de trabalho.
– Eu sei que tu disseste que não era nada, porque uma coisa é um trabalho planeado, outra é a ocasião que surge em que temos que desenrascar um amigo, ou mesmo um vizinho. Eu penso que quem trabalha merece o seu justo salário, e até considero uma falta grave alguém andar a servir-se do suor alheio.
– Todo o trabalho contratado merece a recompensa acordada entre as partes. Mas há quem não tenha entendido muito bem este princípio, que faz parte da Doutrina Social da Igreja…
– Do Catecismo, Carlos! Quando eu aprendi a doutrina, a minha avó, que Deus tenha em bom lugar, obrigou-me a decorar os “pecados que bradam aos céus”. E, entre eles, lá figuravam a “opressão feita aos pobres” e a falta gravíssima de se “não pagar o justo salário a quem trabalha”. Mas tu, ao referires estas coisas, não estás a querer atingir ninguém em particular, pois não?
– Por amor de Deus, Tio Ambrósio! Mas julgo que há situações em que todos devíamos pensar se estamos a ser gratos, e sobretudo justos, para com aqueles que nos prestam colaboração, que dedicam o seu tempo e o melhor do seu esforço a actividades de que todos beneficiam. Mas quem sou eu para julgar seja quem for?
– O voluntariado é sempre possível, Carlos! Ou não é?
– É, Tio Ambrósio!

18/04/2017

AO CALOR DA FOGUEIRA (16-04-2017)

– Bom dia, Tio Ambrósio! Nem sempre calha nós encontrarmo-nos aqui, à porta da nossa igreja paroquial, e quase de madrugada…
– Aleluia, Carlos! Cristo ressuscitou verdadeiramente. Ainda não tinha dado esta boa notícia a ninguém. E muito me apraz que sejas tu a primeira pessoa que encontro, porque é meu hábito, neste dia de festa para os cristãos saudar os vizinhos e amigos com uma alegria verdadeiramente pascal.
– Ainda faltam uns minutos para a Missa, mas penso que o nosso Padre Feliciano vai chegar a horas, porque depois temos que dar ao pedal para percorrer toda a freguesia, precisamente para levar a todas as casas esse anúncio festivo…
– Agora, com três grupos de leigos, as voltas já se dão mais depressa. Quando forem umas cinco ou seis da tarde vamos encontrar-nos aqui, de novo, para a bênção final, dada pelo nosso pároco…
– Como é que vossemecê sabe que as coisas estão assim combinadas? Falou com o senhor Padre Feliciano…
– Não! Mas ontem à noite, estive com o teu cunhado Acácio que me informou sobre a reunião em que ficou decidido que, ao fim da tarde de hoje, depois dos três circuitos terminados, todas as três cruzes com os respectivos grupos se juntariam na igreja para, todos em coro, entoarmos um cântico de aleluia e recebermos a bênção final.
– O Senhor Prior hoje vai dar todas essas orientações, Tio Ambrósio! E a ideia partiu do Liberato que, na nossa última catequese de adultos, em que participaram todos os elementos dos grupos que vão fazer a visita pascal, disse que gostava que, cá na paróquia do Cabeço, a liturgia pascal começasse com a solene vigília de sábado, incluísse a missa de aleluia no domingo, e só terminasse à tarde, com toda a população a reunir-se de novo na igreja, depois da visita da cruz do Ressuscitado a todas as famílias, para receber a bênção…
– Se o senhor Padre Feliciano concordou com essa ideia, eu apoio sem qualquer reserva. Mas desconfio que muitos dos nossos cristãos, ao fim da tarde, já não estão para se darem ao trabalho de se deslocarem aqui de novo…
– A ver vamos, Tio Ambrósio! Não foi vossemecê quem me disse que os costumes também se podem ir alterando?
– Quando for para melhor, é evidente, Carlos! E essa ideia parece-me que tem pernas para andar, embora nem tudo esteja afinado no primeiro ano. Mas se este ano vierem cem pessoas, é bem possível que no próximo já venham cento e cinquenta, e este encontro final no domingo de Páscoa, dentro de poucos anos, se torne um hábito que envolva toda a comunidade.
– Mas não pense o Tio Ambrósio que o nosso amigo Liberato anda a dormir. Ele sabe muito bem como é que se conquistam os fregueses. E, de acordo com o senhor Padre Feliciano, ele resolveu encomendar um bolo de castanhas, que vai dar pelo nome de “Bolo pascal do Cabeço”…
– Qualquer dia ainda vamos ter a confraria do bolo pascal…
– Nós não entramos nessa, embora não tenhamos nada contra nenhuma das confrarias gastronómicas que nasceram por aí mais bastas que tortulhos…
– Eu só tenho receio que se confundam as coisas, Carlos!
– Mas não é essa a nossa ideia, e muito menos a nossa intenção, Tio Ambrósio! O bolo que, para chegar para toda a gente, vai ser alguma coisa que se veja…
– Assim do tamanho da roda de um carro…
– Pelo menos, Tio Ambrósio! E usando apenas condimentos criados pelos habitantes do Cabeço! Veja que o Liberato até chegou ao pormenor de exigir que, além da farinha ser de trigo criado na nossa terra…
– Já não há muito por aí, mas para um bolo ainda se arranja…
– Só o Jeremias criou, o ano passado, mais de cinco moios, Tio Ambrósio!
– Então agora é que eu estou a ver para que é que o Liberato me veio perguntar, há umas duas semanas, se eu podia arranjar uns sete ou oito quilos de castanhas piladas…
– Está a ver, Tio Ambrósio? E eu sei que vossemecê em vez de as vender até lhas ofereceu. Mas há mais beneméritos e beneméritas. A minha Joana entrou com cinco dúzias de ovos caseiros, e o mesmo fizeram mais umas duas ou três donas de casa do Cabeço que continuam a ter poedeiras para consumo próprio…
– E o Sanguessuga forneceu o açúcar, estou mesmo a ver!
– Nada disso, Tio Ambrósio! Açúcar não se cria no Cabeço, e o Liberato faz questão que todos os ingredientes sejam produzidos na nossa terra.
– Isso tem mais valor, Carlos! Mas um bolo sem açúcar…
– E vossemecê já se esqueceu que tanto o Clemente como o Justino têm, cada um deles, para cima de trinta colmeias?
– Isso com castanhas das minhas e mel das abelhas do Justino e do Clemente é bem capaz de ficar uma verdadeira especialidade…
– Depois o Tio Ambrósio vai ver! Eu penso que hoje à tarde vai aparecer o primeiro Bolo Pascal do Cabeço…
– E se não sair bem à primeira, vai sair melhor à segunda…
– Não sei se vale a pena falarmos antes da prova, Tio Ambrósio! Mas eu estou convencido que a receita, que é um segredo bem guardado apenas pelos três jovens cavalheiros que têm o encargo de apresentar o dito…
– Um bolo feito por homens?
– O Tio Ambrósio nem imagina os talentos que andam por aí desaproveitados! O Liberato não descobriu a pólvora! Mas o certo é que, logo a seguir à sua tomada de posse como Presidente da Junta, arranjou a maneira de subsidiar o curso de culinária a três rapazes que estavam no desemprego… e saíram dali três óptimos doceiros, já todos com emprego em Coimbra e no Porto.
– Tu dás-me cada novidade, Carlos! Olha que eu sou bem capaz de vir cá logo à tarde só para ver essa maravilha da nossa gastronomia local…
– Com castanhas das suas, Tio Ambrósio! Mas a novidade vai ser dada em primeira mão pelo nosso Padre Feliciano…
– Assim, com guloseimas dessas, é bem possível que as pessoas se juntem…
– E, se todos gostarem, está iniciado mais um costume no Cabeço, que eu espero que dure muitos anos…
– E eu a ver, Carlos! As castanhas estão sempre garantidas!
– Até logo, Tio Ambrósio! E boas festas! Aleluia! Aleluia!

16/04/2017

Da Paixão à Ressurreição

A Quaresma terminou e deu lugar à alegria pascal. E agora? Vivemos com todo o empenho a Quaresma, mas depois parece que nos esquecemos de viver o Tempo Pascal, que acaba por ficar, tantas vezes, vazio para nós, em contraste com as vivências fortes da Quaresma.
Porém, em vez de separarmos tanto a Páscoa da Quaresma, como se fossem “inimigas”, é melhor surpreendermo-nos descobrindo que as duas se entrelaçam e formam um todo. Inseparáveis, a Páscoa e a Quaresma estão uma para a outra, como a morte e a ressurreição. Por exemplo, quando, na Quaresma, me confesso com sinceridade, arrependimento e propósito de emenda, quando saio da confissão com aquela eficácia da novidade de Cristo, autenticamente regenerado, que outra coisa é isso senão viver já a Páscoa? Do mesmo modo, ao chegar ao Tempo Pascal, talvez haja (alguns) propósitos quaresmais que tenho que continuar a viver: se me propus a “morrer” para determinado hábito de pecado na Quaresma, que sentido teria voltar a ele no Tempo Pascal? Como posso, em tempo da Ressurreição, voltar a rotinas de morte? (não falo, evidentemente, de simples renúncias que fazemos a coisas legítimas, mas sim renúncia a rotinas de pecado). Vivemos o “deserto quaresmal”… Então e depois? Depois do deserto há que viver a Vida plena!
Pe. Orlando Henriques

15/04/2017

AO CALOR DA FOGUEIRA (09-04-2017)

– O Tio Ambrósio desta vez primou na composição do seu ramo para a bênção e a procissão deste domingo…
– Dei-me ao cuidado de enfeitar o meu ramo de loureiro com mais algumas verduras e, depois, achei que ficava bem, ali no meio, uma flor encarnada. Como tenho aí roseiras de várias cores, foi só escolher a mais bonita. Mas reparei que não fui o único a esmerar-me em apresentar, neste domingo, um ramo que se visse…
– A mim, os meus pequenos fizeram recordar-me os meus tempos de infância, em que os miúdos da catequese fazíamos uma verdadeira competição para ver qual era o que conseguia os maiores louvores das pessoas idosas que, já naquele tempo, se reviam nos netos, nos sobrinhos e nos filhos dos vizinhos. Eu tinha sempre assegurado um enorme ramo de loureiro que o Tio Eduardo que Deus tenha em bom lugar sempre reservava para mim.
– É pena não termos agora mais meninos e jovens na catequese para darem vida a esses costumes que correm o risco de desaparecerem…
– Não vai ser tão depressa, Tio Ambrósio! Cá na aldeia somos menos, mas continuamos a ser bairristas, tentando preservar todos os bons costumes…
– E há sempre lugar para algumas inovações, Carlos! Também não é preciso que seja tudo tal e qual como se fazia há cinquenta ou sessenta anos. Nós somos um povo que procura conservar os seus costumes antigos, mas estamos abertos às novidades que não colidam abertamente com as nossas tradições. Por exemplo, penso que, nestes últimos anos, todos aceitamos bem que a visita pascal se faça toda no domingo, saindo várias cruzes…
– Isso já é um dado confirmado, Tio Ambrósio! E, tal como aconteceu em anos anteriores, as nossas mulheres integram o número dos escolhidos para este serviço pastoral à comunidade. Este ano até haverá um grupo formado só por senhoras da nossa aldeia. E, como também já acontece há alguns anos, são os doze elementos das três equipas, quase como que simbolizando os apóstolos, que participam, em Quinta-Feira Santa no cerimonial do lava-pés…
– Lá estás tu, mai-lo Sanguessuga e o teu cunhado Acácio! Mas falta-vos um elemento, porque ouvi dizer que o Quintino este ano ia passar a Páscoa com o filho, a nora e os netos, que estão para a Suíça…
– Uns vão e outros vêm, Tio Ambrósio! O Zurbalino, que passou mais de quarenta anos no Canadá, resolveu regressar de vez e, embora esteja um pouco destreinado destas coisas, aceitou de boa mente fazer parte do nosso grupo. Em tudo é preciso renovação, Tio Ambrósio!
– Muito me agrada esse espírito de integração dos que voltam ou se fixam de novo na nossa terra. Eu até me parece que um casal de holandeses escolheu o Cabeço para passar pelo menos metade do ano…
– E atrás de uns vêm outros. A casa onde viveu o Tio Germano está vendida a uns ingleses que a querem renovar e transformar numa espécie de residência de Verão…
– Esperamos que estas vindas não descaracterizem as nossas raízes culturais, a começar pelo aspecto religioso. O Cabeço sempre primou por afirmar a sua fé católica e os costumes daí decorrentes.
– Não tem existido qualquer problema. Nós somos pessoas civilizadas e sabemos respeitar as convicções de cada um. Por vezes o mais difícil é a língua. Mas, dando uma no cravo e outra na ferradura, lá nos vamos conseguindo entender. E quem está mais feliz com esta renovação populacional é o nosso amigo Sanguessuga, que tem agora uma clientela mais variada.
– O anúncio da alegria pascal também é para essas famílias que passam a integrar a comunidade…
– Para já, todos os que têm procurado a nossa aldeia são cristãos católicos como nós. Só há um inglês que, apesar das pequenas diferenças do seu rito, não tem nenhum problema em participar nas nossas celebrações festivas. E até já disse que também quer ir cortar um pouco de junquilho e um molho de alecrim para enfeitar o átrio da sua porta, porque não dispensa que o anúncio do Senhor Ressuscitado não seja proclamado também na casa que anda a remodelar.
– Está então tudo preparado para que a comemoração da Páscoa do Senhor tenha, na nossa terra, o brilho que sempre teve. É pena que já se ouçam poucas campainhas a anunciar a chegada do feliz anúncio!
– Também estamos a pensar nisso, Tio Ambrósio! Antigamente, todos os meninos da catequese iam ao seu rebanho tirar a campainha de uma das cabritas ou pediam ao Tio Jerónimo uma das coleiras dos bois para, à frente do cortejo festivo, anunciarem a seu modo a chegada da Cruz Gloriosa de Cristo morto e ressuscitado. E, como sabe, nem faltavam os foguetes para todos saberem se faltava muito para abrirem a sua porta e receberem familiares e amigos que não faltavam nesta ocasião…
– E tudo isso acabou!
– Não, Tio Ambrósio! Os miúdos é que são poucos! Mas campainhas não faltam, pois todos guardam como relíquia as campainhas dos bovinos e dos rebanhos de cabras. Daí que estejamos a fazer uma campanha para que, à falta de meninos, sejam os adultos a vestirem o seu fato domingueiro e, quando lhes for possível, a acompanharem a Santa Cruz que vai de casa em casa a anunciar a feliz notícia da Ressurreição de Jesus. O ano passado já se ouviram algumas. E, este ano, estamos a contar com um número maior. Até o nosso amigo inglês, sabendo que se trata de um costume antigo da nossa terra, pediu uma campainha cabreira para assinalar, à sua porta, a passagem do Senhor.
– Muito me agrada ouvir essas notícias, Carlos! E eu até sei que, este ano, é o teu grupo que vai fazer a volta que passa aqui à minha porta. Como deves calcular, cá estarei a aguardar a vossa vinda com alegria. E sei que não vou estar sozinho, pois o meu afilhado Jacinto já me anunciou que não iria faltar, e tenho a certeza que pelo menos metade dos habitantes do Cabeço hão fazer os possíveis e os impossíveis para virem beijar a Santa Cruz a minha casa, tal como eu farei, em retribuição, até onde me deixarem ir as pernas.
– Cá nos encontraremos, Tio Ambrósio!
– Se Deus quiser, Carlos!

14/04/2017

AO CALOR DA FOGUEIRA (02-04-2017)

– Estamos à sua espera, Tio Ambrósio!
– À minha espera? Mas eu não prometi nada, fosse a quem fosse!
– Ai aquele maroto do Sanguessuga que, mais uma vez, não cumpriu aquilo que nos prometeu! Veja que foi ele que se encarregou de avisar o Tio Ambrósio sobre a nossa ida à procissão dos Passos. Nestes últimos anos, por esta altura, sempre vamos todos cumprir esta devoção que, entre o nosso povo, se foi arreigando há dezenas ou mesmo centenas de anos. E vossemecê costuma ser dos primeiros a lembrar o pessoal…
– Não passo ano nenhum sem participar numa ou mesmo duas dessas piedosas devoções. Se queres que te diga, nem sei já quando é que fui a primeira vez. Tenho a impressão que terei ido ou ao colo da minha santa Mãe, que nunca faltava a este piedoso acto, ou pela mão de meu Pai, que também era um grande devoto de Nossa Senhora das Dores, e que todos os anos ia ou a Tentúgal, ou à Carapinheira, ou mesmo a Taveiro ou a Condeixa. Houve um ano em que me levou a Pedrógão Grande e, no seguinte, passámos mesmo o rio, e fomos a Pedrógão Pequeno, cuja procissão termina lá no alto de um monte, de onde se observa um soberbo panorama sobre o vale onde hoje está construída a Barragem do Cabril. Mas, quando era rapazote, onde eu mais gostava de ir era a Miranda do Corvo, onde os Passos se celebram só de dois em dois anos…
– Aí, este ano não há! Por isso, e para que o Tio Ambrósio não canse muito as pernas, resolvemos ir a um local mais plano, mas onde a devoção do povo é manifestamente evidente.
– Mas ainda é muito cedo para irmos a um acto religioso que, habitualmente, se realiza só da parte da tarde. Não conheço lugar nenhum onde as cerimónias tenham início antes das três horas…
– E desta vez creio que o início também rondará esse horário. Mas o Sanguessuga, que é quem este ano oferece o transporte, disse-nos logo que uma festa sem almoço não era festa completa…
– Eu não concordo, Carlos! Já me tenho deslocado muitos anos aos mais diversos lugares e até faço questão em, nesse dia, fazer jejum e abstinência, para melhor me integrar no espírito penitencial que estes actos devem ter. Tu já sabes bem que, para mim, uma procissão dos Passos, não é propriamente uma romaria folclórica. Eu quando participo nesses actos, participo mesmo a sério, procurando unir-me espiritualmente ao sofrimento de Cristo que, para remissão dos nossos pecados, suportou o peso da cruz e caiu várias vezes a caminho do Calvário…
– Eu sei, Tio Ambrósio! E o Sanguessuga mai-lo Acácio, que este ano são os nossos companheiros de viagem, também nutrem esses sentimentos religiosos. E vossemecê conhece-os bem e sabe que são daqueles que levam a sério as manifestações da nossa fé. Só que também não há mal nenhum em fazermos, nesse dia, uma refeição de amigos. Ou haverá?
– Não, Carlos! Mas sem se cometerem exageros, que não são nada convenientes nos dias em que devemos colocar o nosso espírito religioso acima de tudo o resto. Como diz a Sagrada Escritura, há um tempo para todas as coisas. Por exemplo, quando nós nos reunimos aqui pelo São Martinho, o nosso objectivo é o convívio e o são divertimento, sendo de louvar que um traga a sanfona, outro a viola e se arme aí um bailarico com cantigas ao desafio…
– O mesmo tem acontecido, e se irá repetir este ano por altura dos Santos Populares. E nós estamos bem conscientes dos nossos deveres e do testemunho que devemos dar em todas as circunstâncias. Mas não é pecado nenhum se, em vez de almoçarmos em nossas casas, formos fazer um repasto ligeiro a um pequeno restaurante de um conhecido e amigo de longa data do Sanguessuga. E, nesse caso, vossemecê não tem rebuço nenhum em nos acompanhar. Ou tem?
– Não, Carlos! Eu sei perfeitamente que todos vós sois companheiros excelentes e que não ides entrar em exageros que não sejam dignos de homens da nossa condição, e que não se integrem no espírito do acto penitencial que sempre deve estar presente na celebração de uma procissão do Senhor dos Passos.
– Estamos entendidos, Tio Ambrósio!
– Eu sei que nem era preciso estar a repetir-vos estas coisas. Mas, como as paredes têm ouvidos, sempre pode ser que estas considerações sejam escutadas por alguém que delas tenha necessidade…
– Está claro! Não é só a nós que o Tio Ambrósio dá esses avisados conselhos, mas a todos os que, por qualquer meio, chegarem ao conhecimento das suas sempre proveitosas considerações…
– E com toda esta conversa, ainda nem me disseste onde é que, este ano, vamos participar na procissão dos Passos e ouvir o sermão do Encontro, que é um dos quadros da Paixão que inspira maior piedade nos corações dos que querem reviver espiritualmente a caminhada de Jesus entre o Pretório de Pilatos e o cimo do Calvário onde foi crucificado e entregou ao Pai a sua Vida em resgate por todos os pecados de todos os seres humanos, de todos os tempos e de todos os lugares.
– Eu sei, Tio Ambrósio! A salvação de Cristo é universal. Não exclui absolutamente ninguém. Foi isso que nos explicou o nosso Padre Feliciano, quando nos falou, na última lição da catequese de adultos em que participou, da instituição da Eucaristia. Ele sublinhou muito bem, e até repetiu várias vezes, que, na Última Ceia, Jesus, tomando o cálice com vinho, o deu aos discípulos dizendo que bebessem todos do Seu Sangue, “derramado por vós e por todos para a remissão dos pecados”.
– Isso mesmo, Carlos! Cristo derramou o Seu Sangue por todos! Ninguém foi excluído do seu acto redentor. E aí está uma meditação que todos nós podemos ir fazendo quando participamos na procissão dos Passos que, pelos vistos, este ano será em Mira…
– Eu disse-lhe que era um lugar plano, para o Tio Ambrósio não sentir grande cansaço…
– Podia ser noutro lugar qualquer, onde o povo cristão se junte, para seguir espiritualmente as diversas estações da Via-Sacra. Mas estou de acordo com a vossa escolha. Só vou ali dentro vestir um agasalho, e estou inteiramente às vossas ordens.
– Vamos, Tio Ambrósio! O Sanguessuga já apitou uma série de vezes!
– Ele espera, Carlos! Até porque saber esperar é uma virtude!

12/04/2017

AO CALOR DA FOGUEIRA (26-03-2017)

– Santas tardes, Tio Ambrósio!
– Vem com Deus, Carlos! Já me tardavas, ou sou eu que ando com os horários baralhados…
– Esta coisa da mudança das horas é uma boa treta, Tio Ambrósio! Anda um homem habituado a levantar-se às seis da manhã e, de repente, começa a levantar-se às cinco, porque a geringonça do relógio biológico não entende as razões pelas quais se adiantam ou se atrasam sessenta minutos.
– Já antigamente, cá na nossa aldeia, havia dois horários: o de Verão e o de Inverno. Quem mandava na mudança era o regedor das águas da regadia, de que tu ainda te lembras bem…
– Se lembro, Tio Ambrósio! Quando eu era pequeno o regedor era o Tio Jacinto que Deus tenha em descanso, que, desde os inícios de Maio até ao final de Setembro, passava por todas as casas da aldeia a anunciar a que horas deviam começar a regar os milhos, de noite e de dia, de modo a que todos pudessem criar o renovo de que precisavam para a sua sobrevivência…
– Pois fica sabendo que esse sistema de rega comunitária vem de há mais de duzentos anos, e penso que até foi por causa de regular tudo isso que o povo encomendou um relógio que foi colocado na torre da igreja. E quem mandava nos horários era o regedor das águas.
– Mas não tinha apenas essa missão…
– Pois não, Carlos! Além de zelar para que o povo acordasse a horas e fosse regar os milhos, que eram a base do sustento de toda a população, tinha também uma função religiosa. Antes do nascer do sol tocava pela primeira vez a Trindades, e todo o povo, estivesse onde estivesse, se punha em atitude de oração e rezava as três Avé-Marias seguidas de três Glória-ao-Pai. O ritual repetia-se por volta do meio-dia solar e, à noite, uns minutos antes do pôr-do-sol…
– Lembra-me de ouvir dizer aos mais velhos que era também essa a hora de despegar do trabalho…
– Quando se podia, era! Sobretudo quando alguém andava assalariado. O trabalho, nesse caso, era de sol a sol…
– Ou seja: começava quando o regedor das águas tocava a primeira badalada das trindades, e terminava, à noite, quando se rezava a última Avé-Maria! Apesar de ser mais novo, lembro-me muito bem desses tempos, e até lhe posso dizer que tenho algumas saudades, porque então, ao contrário do que hoje acontece, todos os homens e mulheres eram tementes a Deus! Até o boticário, o senhor Alexandrino, que era o único homem que faltava à missa ao domingo, quando o relógio da torre tocava as três badaladas do meio-dia, tirava o chapéu, parava no caminho, e fazia alguns minutos de silêncio. E toda a população da aldeia registava e apreciava este comportamento de um homem que, já na altura, se dizia agnóstico, embora ninguém soubesse bem o que é que um palavrão desses queria dizer.
– Eu ainda hoje sigo esse ritual, Carlos! É verdade que o velho relógio de ferro forjado há muito que deixou de funcionar, com grande pena minha e da maioria dos homens e das mulheres do meu tempo, mas vou-me guiando pelo sinal horário da Rádio Renascença, quando estou em casa, ou pela altura do sol, quando ando por aí a limpar umas ervas ou a fazer um canteiro para semear as ervilhas…
– Até a escola se regulava pelo relógio da torre da igreja, Tio Ambrósio! Estávamos ali todos à espera, e a senhora professora, como já fazia antes o mestre-escola, só dava licença para todos entrarmos quando batiam as badaladas sonoras das oito da manhã. Depois era o sacrifício de passar o tempo até às trindades de meio-dia, que não eram sinal de que todos podíamos sair. Primeiro, todos de pé, e de mãos postas, rezávamos o “Anjo do Senhor anunciou a Maria”, e depois é que se dava o chilreio da debandada, cada um a atropelar o colega da frente, para vermos quem era o primeiro a chegar a casa, onde, na maior parte dos casos, nos esperava uma malga de caldo fumegante e, de vez em quando, um pedacito de carne da salgadeira, que a mãe ou a avó iam doseando, de modo a que o conduto chegasse para o ano inteiro…
– Antes desses tempos ainda as dificuldades eram maiores, Carlos! Mas bendito seja Deus que, nestes últimos tempos, nos tem dado possibilidades de vivermos um pouco mais desafogados, embora isto não se traduza em maior alegria ou felicidade. Eu penso mesmo que quantos mais fáceis e fartos são os tempos, mais quitada é a alegria de vivermos…
– E de convivermos, Tio Ambrósio! Porque viver é uma coisa importante; mas conviver com os nossos semelhantes é igualmente uma fonte duradoira de felicidade. Foi o Tio Ambrósio que um dia me disse que um escritor de Trás-os-Montes, que viveu quase toda a sua vida em Coimbra, escreveu no prefácio de um dos seus livros de contos que “ninguém é feliz sozinho, nem mesmo na eternidade”.
– E não deixo de lhe dar razão, Carlos! Pelo menos em parte! É verdade que alguns anacoretas, ou monges do deserto, escolheram a solidão para melhor se poderem encontrar com Deus. Mas de maneira geral, o ser humano sente-se mais realizado quando caminha a convive com os seus irmãos. Não foi por birra que Deus nos criou dentro de uma família, com pais, irmãos…
– E avós, Tio Ambrósio!
– E tios, e primos, e sobrinhos, Carlos! Aqui, no nosso mundo ocidental, vai-se perdendo cada vez mais o sentido da família alargada, onde há espaço e funções para todos. Eu fico muito triste quando vejo que os avós são colocados, a maior parte das vezes, à margem da família. Se há um casamento ou um baptizado, são chamados sobretudo se estão em condições de dar alguma prenda choruda. De outro modo, logo aparecem as desculpas de o restaurante onde é servido o almoço só ter lotação para tantos lugares, ou de não haver transporte garantido para mais que tantas pessoas…
– Pobres velhotes! E depois ainda têm o descaramento de, quando alguém diz que está velho, virem com a frase feita, e mais que gasta, que “velhos são os trapos”! Uma ova, Tio Ambrósio!
– Tem tento naquilo que dizes!
– Isto não é nenhuma asneira, Tio Ambrósio! E se fosse, eu teria a humildade para, agora em tempo quaresmal, bater com a mão no peito e pedir perdão ao Pai que está nos Céus!

AO CALOR DA FOGUEIRA (19-03-2017)

– Há dias que, quase sem fazer qualquer esforço, me vem à lembrança o seu significado. Este é um deles! Foi já há tantos anos que eu perdi o meu Pai, e não se me esvai da memória a sua figura forte, carinhosa e, por vezes austera.
– Este é um dos dias que deve ser celebrado, Carlos! Tal como o Dia da Mãe, que não sei por que motivo, empontaram para o primeiro domingo de Maio. Eu, cá no meu íntimo, celebro sempre o Dia da Mãe a 8 de Dezembro, e o Dia do Pai a 19 de Março…
– E são esses os dias que se prestam melhor para esta celebração, especialmente tratando-se de ambientes cristãos, acostumados a ver no Patriarca José o pai adoptivo de Jesus, e em Maria a Sua Mãe que, por dádiva do próprio Filho é também a nossa Mãe. Por isso, eu gostei muito que hoje, na missa, o nosso Padre Feliciano tenha feito uma referência especial aos pais, que os que ainda podemos abraçar aqui e agora, quer os que já partiram mas continuam vivos na nossa memória.
– Continuam vivos, mesmo para além da nossa memória! O dom da vida não se esgota nestas dezenas de anos que vamos padecendo neste vale de lágrimas, mas é permanente, agora e no tempo novo em que se realiza a nossa esperança. Seria um absurdo que o Senhor nos tivesse concedido este precioso dom para dele usufruirmos apenas meia dúzia de dias. Eu cá sou dos que repetem com toda a convicção as últimas palavras do Credo: “creio na ressurreição da carne e na vida eterna”!
– Eu também costumo apelar a todas as minhas forças, e a toda a concentração que me é possível, para manifestar claramente a minha fé no dom permanente da vida que Deus nos concedeu! Nem podia ser de outro modo, Tio Ambrósio! Por isso eu continuo, ainda hoje, a dialogar com o meu Pai, que nos deixou há tantos anos, na certeza de que, por dom de Deus, ele me continua a ouvir e até, em certos momentos mais difíceis, a aconselhar-me qual é a atitude que devo tomar ou qual é o caminho que devo seguir. De resto eu, neste capítulo, até sou um homem cheio de sorte, porque continuo a ter no Tio Ambrósio um verdadeiro pai, que sempre me tem guiado ao longo da minha caminhada. Até por isso, neste dia, eu quis ter um agradecimento especial para consigo, garantindo-lhe que, na missa, quando o Padre Feliciano lembrou os pais vivos e defuntos, eu recordei o meu que já partiu e o recordei a si que sempre me tem adoptado e tratado como verdadeiro filho!
– Neste ponto não te enganas, Carlos! Eu sempre te trago no coração como se trazem os filhos gerados na juventude! E não penses que também não agradeço a Deus o facto de Ele te ter colocado no meu caminho, porque se é verdade que os filhos se apoiam nos conselhos dos pais, estes também se revêem na juventude dos filhos, na sua força, no seu poder de decisão e até na sua alegria tantas vezes contagiante. Por isso, o agradecimento é recíproco. E, enquanto Deus no-lo permitir, havemos de continuar a ter um grande amor um pelo outro. Este é, pelo menos, o meu desejo…
– E o meu, que naturalmente se prolonga nos meus filhos e da Joana, que são a melhor prenda que Deus me concedeu! Então o Tio Ambrósio não quer saber que a mais pequena, ainda mal luzia a manhã, foi, pé ante pé, bater devagarinho à porta do meu quarto, para me dar um beijinho e me oferecer um desenho que ela fez, a lápis de cor, durante a hora de trabalhos manuais na escola? Eu fiquei tão contente que, pode crer, até as lágrimas me vieram aos olhos…
– Deus quer que a vida dos pais continue nos filhos e, depois destes, nos netos, de geração em geração. Porque o dom de Deus é contínuo, Carlos! Deus é um mãos-rotas em generosidade! Concede-nos muito mais do que nós Lhe pedimos, e imensamente mais do que nós merecemos…
– Eu penso que, por tudo isto, não vem fora de contexto eu fazer-lhe o convite e o Tio Ambrósio aceitá-lo, para ir hoje lá a casa merendar. Os pequenos resolveram convencer a Joana a preparar uns mimos para o pai, e eu atrevi-me a dizer-lhe que gostava de partilhar este momento familiar com o Tio Ambrósio, para que eles entendam o que é que nós queremos dizer com a expressão “de geração em geração”. Vossemecê não vai dizer que não, que eu depois, quando o tempo refrescar, prometo trazê-lo a casa no meu velho meio de transporte…
– Tu és danado para me dares a volta sempre que te apetece. É que a mim já não me apetecia muito sair de casa. Mas não resisto a dizer que sim, até porque tenho muitas saudades de estar algum tempo com os pequenos…
– Como acontece a tantos avós!
– Alguns não têm esta sorte que eu tenho, Carlos! Ainda um dia destes por aqui passou o Tio Eufrásio a contar-me que tem umas saudades enormes dos netos, que não os vê há mais de três anos, e até já põe a hipótese de não voltar a vê-los! Os dois filhos que tem emigraram ambos para a Austrália e lá têm a sua vida. Telefonam muitas vezes, mas, como ele me disse com as lágrimas nos olhos, uma coisa é a gente ouvi-los, outra bem diferente é poder dar-lhes um daqueles abraços que, além de tudo o mais, reconfortam a alma de um homem que passou toda a sua vida a trabalhar para que nada lhes faltasse…
– Então venha daí comigo, que eu penso que a Joana, com a ajuda dos pequenos, preparou um petisco que ambos vamos apreciar. Eu não sei o que é, porque não costumo arrancar segredos à força. Mas tenho a certeza que o Tio Ambrósio vai gostar, embora eu saiba que, à noite, já só costuma comer uma torrada e beber um chá de tília…
– De macela, Carlos! Antes de ir para a cama, é um dos melhores tranquilizantes que conheço…
– Pode ser que também se arranje, Tio Ambrósio! A Joana, como boa mãe de família, costuma estar atenta a todos esses pormenores.

AO CALOR DA FOGUEIRA (12-03-2017)

– Há coisas na vida em que a gente não pensa, nem reflecte nelas com a atenção que elas requeriam. E uma delas é esta coisa da tentação. Na última sessão da nossa catequese de adultos, o Liberato fez-nos a proposta de dizermos todos, cada um na sua vez, o que pensávamos sobre uma coisa que ele disse que é quase tão natural como a nossa sede…
– Tão natural como a nossa sede é a nossa fome, Carlos…
– Também podia ser, Tio Ambrósio! Mas, neste caso, ele queria referir-se à tentação a que todo o ser humano está sujeito, não uma nem duas, mas muitas vezes ao dia…
– Se calhar foi por isso que Nosso Senhor, quando nos ensinou o Pai Nosso, incluiu nessa oração o pedido a Deus para que nos não deixe cair em tentação…
– E nos livre do mal, Tio Ambrósio! Nós repetimos tantas vezes esta oração, e raramente nos detemos a meditar no que é que ela significa profundamente para cada um de nós. Como diz o meu cunhado Acácio, passamos por estas palavras da oração que Jesus nos ensinou como cão por vinha vindimada…
– Por estas e por muitas outras, Carlos! A maior parte das vezes quase parecemos uma máquina de repetição, ou um disco que diz sempre o mesmo, sem aprofundar o sentido das palavras que profere.
– E a verdade é que, como nos alertou o Liberato na sua última lição de catequese, isto da tentação é um facto que atravessa toda a nossa vida, todos os dias e das mais variadas formas. O nosso catequista de serviço começou por nos alertar para o fenómeno da longa história da tentação. Afinal o problema é tão velho como o próprio homem. Logo no princípio, a serpente, que simboliza o tentador, seduziu (porque a tentação é sempre uma sedução) a mulher, e esta o homem… e ambos se deixaram levar no engano, só depois reconhecendo que não tinham procedido como deviam e como lhe indicava a sua consciência.
– É o que se passa com todos nós, Carlos! Novos e velhos, jovens e crianças, ninguém está isento de sentir os apelos da tentação. E até te posso dizer que não existe apenas um tentador…
– O Liberato lembrou que, na velha cartilha, que agora nem sempre é tida em conta, se dizia que o homem pode ser tentado pelo menos por três grandes espécies de inimigos: o mundo, o demónio e a carne, ou seja a nossa natureza inclinada a deixar-se ir na onda do mais fácil e do que nos dá maior prazer em cada momento que passa…
– E não se trata de uma coisa passageira, que agora nos entrou pela porta e logo a escorraçamos pela janela, de modo a que nunca mais entre…
– Não, Tio Ambrósio! A tentação é chata como uma carraça! Não nos larga de modo nenhum! E quando a gente pensa que se viu livre dela, logo nos aparece uns metros à frente, no nosso caminho, vestida de modo diferente, de maneira a que pensemos que já não é a mesma. Disse-nos o Liberato, na sua reflexão, que o Tentador tem uma imaginação levada da breca. Se a gente não escorrega na primeira, logo ele inventa outra forma de nos fazer cair na esparrela. E volta à carga quantas vezes forem precisas, sempre com argumentos mais requintados.
– É persistente, Carlos! Nisso dá-nos uma boa lição, de modo a não descansarmos nem à primeira, nem à segunda. Ele, o Tentador, não é tão ingénuo como nós, que pensamos que nos basta rezar uma vez, praticar o bem numa só ocasião, dizer a verdade um dia apenas…
– E disfarça-se, Tio Ambrósio!
– Se disfarça, Carlos! Veste-se de mil e uma maneiras, encarnando os mais diversos personagens. É um actor versátil! Umas vezes surge-nos no papel de comerciante, tentando seduzir-nos com novos produtos, que nos trazem sempre a felicidade garantida…
– E quando vamos a ver, caímos que nem patinhos!
– Claro! Para que é que o Tentador tirou o curso de mestre da sedução? Por isso, ele pode aparecer na nossa vida vestido por exemplo de catedrático…
– Acredito que sim. Mas para quê, Tio Ambrósio?
– Para se fazer passar por uma pessoa muito inteligente e muito sábia, com opiniões que nós devemos seguir sem nos questionarmos sobre a matéria que nos é proposta. Queres um exemplo?
– Agradecia, Tio Ambrósio! É que por vezes eu não entendo bem as coisas, nem que me façam um desenho…
– Tens agora aí a discussão, a que já aqui nos referimos, sobre a legalização da pena de morte assistida, ou seja da eutanásia. O Tentador arrebanhou aí uns tantos, alguns dos quais até foram baptizados e se declaram cristãos, que querem fazer ver ao povo o contrário do que está inscrito na sua consciência. E usarão de todos os argumentos possíveis e imaginários, como um intelectual de esquerda que o meu afilhado Jacinto aqui me trouxe um dia e que, vindo o assunto à baila, me quis passar um atestado de ignorância, pois alguns dos crânios mais famosos do planeta, desde um investigador na Universidade da Pensilvânia, até a um renomado médico de Copenhaga, passando por diversos catedráticos de Oxford, de Paris e de todo o mundo civilizado são defensores da legalização da pena de morte assistida…
– E o Tio Ambrósio engoliu em seco…
– Achas, Carlos? Há assuntos sobre os quais, por mais morfina que me botem no chá, ninguém é capaz de me calar. E este da inviolabilidade da vida é um deles, talvez mesmo o primeiro de todos. Por isso, com toda a calma que me foi possível encontrar, mas com a voz firme que tu me conheces quando se trata de falar de assuntos muito sérios, eu declarei-lhe: “pois pode o senhor doutor trazer-me aqui todos esses cientistas e esses ilustres catedráticos, e juntar-lhes outros tantos, mais o dobro de outros tantos, e mais uns milhares deles vindos dos quatro cantos do mundo, acumulando toda a sua sabedoria adquirida nos seus altos estudos, que eu lhe garanto, à fé de quem sou, que tudo o que sabem não vale nem a milionésima parte de uma só Palavra saída da boca de Deus”.
– E calou-o, Tio Ambrósio?
– Certamente ele haveria de voltar à carga noutro lado, como fazem todos os que estão ao serviço do Tentador. Mas eu, não apenas como cristão, mas como ser humano que tem consciência daquilo que é, não recuei nem um milímetro.
– E Deus o conserve assim por todos os dias da sua vida!

08/04/2017

AO CALOR DA FOGUEIRA (05-03-2017)

– Estamos de novo na Quaresma, Tio Ambrósio!
– Desde quarta-feira passada, que eu bem te vi, a ti e à Joana, na cerimónia da bênção e imposição das cinzas. É com este acto penitencial, que recorda ao homem a sua fragilidade, que damos início à preparação para a celebração da festa central do cristianismo: a da comemoração da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo.
– Pensei que a participação fosse maior, Tio Ambrósio! É verdade que o Cabeço, como qualquer aldeia do interior, tem cada vez menos habitantes, pois só por cá ficam os mais idosos e os que, como eu, persistem em viver da agricultura, porque ainda trago nos ouvidos uma frase que vossemecê um dia me disse: “Da terra é que vem o nosso sustento”.
– E não estás arrependido em teres tomado esta opção. Que eu saiba ainda te não faltou o pão de cada dia, a ti, à tua mulher e aos teus filhos…
– Do corpo me sai, Tio Ambrósio! Mas não trocava a minha vida por uma qualquer aventura em busca de trabalho numa grande cidade ou até no estrangeiro, embora respeite e entenda muito bem aqueles que tomaram essa decisão para darem sustento aos filhos. Mas, andando por lá, penso que me faltaria qualquer coisa que só aqui consigo obter. Olhe! Por exemplo tenho dúvidas que, numa grande metrópole, ou na estranja, eu tivesse ocasião de participar na imposição das cinzas, que é um rito a que eu me habituei desde os tempos da catequese. E é isto mesmo que eu procuro transmitir aos meus filhos, na esperança que eles, amanhã, façam o mesmo em relação aos meus netos.
– Os bons hábitos transmitem-se de geração em geração…
– Já os maus, não é bem assim! Os maus hábitos são como as ervas ruins, que, por mais que a gente monde, continuam sempre a infestar as hortas e os jardins…
– Eu tenho muito cuidado com o que planto no meu quintal, Carlos! E, ao primeiro aviso da erva da grama, ou de outro qualquer infestante, caio-lhe em cima até ter a certeza que a peste foi erradicada de uma vez por todas.
– Devia ser assim nos nossos campos e na nossa vida, Tio Ambrósio! Ele há vícios e costumes maus que empestam a valer…
– Para nós, os cristãos, a Quaresma é uma boa ocasião para meter o sacho a tudo o que sufoca o nosso desenvolvimento humano, quer no aspecto social, quer familiar, quer espiritual, de tal modo que possamos desenvolver as nossas actividades equilibradamente…
– Mas não bastam as cinzas, Tio Ambrósio!
– As cinzas são um rito litúrgico em que nós participamos para interiorizarmos que somos pó…
– Por isso, o senhor Padre Feliciano, ao colocar cinza sobre a cabeça de cada um de nós, bem nos vai dizendo: “lembra-te, ó homem, que és pó e ao pó hás-de voltar”…
– Por isso esta é a ocasião mais propícia para, através da oração, do jejum e da esmola, transformarmos a nossa vida…
– É a isso que damos o nome de conversão. Não é, Tio Ambrósio?
– A conversão deve ser contínua, porque a maldade é também contínua no coração do homem. Todos somos pecadores por natureza, e todos somos constantemente chamados à graça através dos meios que Deus coloca ao nosso alcance para mudarmos para melhor a nossa vida.
– O que, digo eu que tenho experiência disso, não é nada fácil, Tio Ambrósio!
– Dizes tu e dizemos todos os que tomamos consciência da nossa fraqueza e da nossa fragilidade. Por isso é necessário que escutemos o apelo permanente ao arrependimento e à mudança de vida…
– E temos muitos meios para chegarmos aí?
– Além da confissão sacramental, ou reconciliação, Jesus, no Evangelho, aponta-nos três meios: a oração, o jejum e a esmola…
– Foi sobre isso que nos falou o senhor Padre Feliciano na Quarta-feira de Cinzas…
– E acrescentou que devemos percorrer estes caminhos de conversão o mais silenciosamente possível. Jesus lá diz, segundo o Evangelho de S. Mateus, que, quando dermos esmola ou praticarmos qualquer das catorze obras de misericórdia, não devemos ser como as pessoas fingidas, que gostam de fazer saber aos seus vizinhos que fazem este e aquele favor para receberem os louvores de quem os escuta. E Jesus lá diz que, quem assim procede, já recebeu a sua recompensa. Porque a verdadeira caridade é silenciosa. “Não saiba a tua esquerda o que dá a tua direita, para que a tua esmola fique em segredo, e Deus, que vê tudo o que está oculto, te dará a recompensa”.
– Diga-se que esse procedimento não é nada fácil, Tio Ambrósio! Nós até conhecemos muitas pessoas que, quando fazem o bem, gostam que se toquem as trombetas nas ruas, para que os seus nomes apareçam nos jornais, e todas as pessoas digam que estamos perante um benemérito da sociedade…
– Eu penso que Jesus, perante esses casos, haveria de concluir: “Já receberam a sua recompensa”. De qualquer modo, penso também que as obras sociais, mesmo quando divulgadas, têm o seu mérito, porque servem para aliviar as necessidades e os sofrimentos dos mais pobres, dos mais fracos e dos mais pequenos. Mas, aos olhos de Deus, tenho a certeza de que são muito mais meritórias aquelas que se fazem sem alardes e sem o desejo que os outros saibam que eu sou um cidadão que se preocupa com o bem dos mais infelizes.
– Ainda há quem seja assim?
– Claro que há, Carlos! Tu próprio, quando fazes um favor a alguém que precisa, não andas por aí a noticiar aos quatro ventos que ajudaste nisto ou naquilo, que destes esta ou aquela esmola…
– Nisso procuro ser muito recatado! Tanto eu como a Joana, que nesta, como em muitas outras facetas, é uma mulher exemplar. Nem a mim, que sou, por assim dizer a sua mão esquerda, ela confessa que levou cinco litros de azeite a alguém que dele precisava…
– É esse o bom caminho, Carlos! O nosso povo sempre disse que “quem dá aos pobres, empresta a Deus”!
– Seria bom que neste mundo cheio de egoísmos, e de gente que só pensa em obter cada vez mais bens materiais, surgissem muitos exemplos de mulheres e homens caritativos…
– E surgem muitos, Carlos! Graças a Deus!

AO CALOR DA FOGUEIRA (26-02-2017)

AO CALOR DA FOGUEIRA (26-02-2017)
– Entra, Carlos! E tira-me essa cara de entrudo arrependido porque, embora venha aí o tempo da Quaresma, um cristão, que o é de verdade, deve andar sempre com um sorriso nos lábios, apesar das muitas provações e provocações…
– Bem dito, Tio Ambrósio! Neste mundo estamos todos sujeitos a muitas provações e eu, como pobre cidadão do Cabeço, não estou isento de, muitas vezes, continuar, como diz o nosso povo, a comer o pão que o diabo amassou.
– Mas não te quero ver desanimado, rapaz! Além de tudo o mais, nem me parece que tenhas muitas razões para isso. Não tens, pois não?
– Se calhar, não! Nós é que nos habituamos mal e, quando aparece alguma dificuldade maior, parece-nos logo que o mundo vai desabar. Mas eu estou em crer que Deus continua a ser fiel à Sua aliança para connosco…
– Então não desanimes! Como diz o Evangelho, lava o rosto e bota um pouco de perfume na cabeça, porque também isso ajuda a ultrapassar os momentos menos positivos da vida. Isto no que diz respeito às provações. Porque as provocações a que os nossos políticos nos vão sujeitando, isso é outra conversa. E são tantas que a gente nem sabe bem por que ponta há de começar…
– Parece que alguns endoidaram de todo, Tio Ambrósio! Então esta da vontade pertinaz de legalizarem a pena de morte…
– Não exageres, Carlos! Portugal orgulha-se de ser um dos primeiros países a abolir quer a escravatura, quer a pena de morte…
– Então para si a legalização ma morte assistida, que é uma forma mais adocicada de dizer eutanásia, não tem nada a ver com a pena capital?
– Não é fácil de tratar um tema destes, Carlos!
– Temos que chamar as coisas pelo seu nome próprio, Tio Ambrósio! E quem não esteve com meias medidas foi o meu cunhado Acácio que foi comprar uns dez metros de pano de lençol e o colocou em toda a frontaria da sua casa, à altura das janelas, com esta frase gravada em letras grandes e vermelhas: “Eu vim para que tenham vida! (Jesus Cristo)”. E, por baixo, a preto, quase como que a imitar uma assinatura, acrescentou: “Eu sou cristão!”.
– Medida acertada, Carlos!
– Nem todos gostaram, Tio Ambrósio! Até houve aí um daqueles cristãos de esquerda que lhe começou a atirar piadas, porque estava a ir contra ideias já postas em prática por países muito mais avançados em matéria civilizacional…
– E o Acácio calou-se?
– Isso calou ele! Perguntou ao dito cujo, que não passa de um achadiço cá no Cabeço, se os da geringonça já tinham engendrado alguma lei que viesse alterar a Constituição, que consagra a liberdade de pensamento e de expressão como um direito inalienável de todos os cidadãos.
– E o outro?
– Lá se foi a resmungar. Mas antes de se afastar de todo, ainda teve tempo de ouvir o recado do Acácio: “Se quiseres, compra uns metros de pano, e escreve lá o que te apetecer. Mas não venhas com tretas, no sentido de me quitar a minha liberdade e a dos demais cidadãos do Cabeço”. E digo-lhe mais, Tio Ambrósio! A iniciativa do meu cunhado foi o início daquilo que eu penso que possa vir a ser um rastilho para o caso de haver necessidade de nos unirmos para tomarmos uma posição perante as agressões com que começa a ser bombardeada a sociedade portuguesa, que continua a ser de matriz cristã e, por isso, não pode nem deve tolerar que venham ferir, com princípios espúrios, a alma do nosso povo.
– Essa tirada não é tua, Carlos!
– O seu a seu dono, Tio Ambrósio! É do Liberato, evidentemente, mas eu assino por baixo sem pestanejar. E ainda lhe não contei tudo!
– Não me digas que já outros começaram a imitar o Acácio…
– A seguir foi logo o Sanguessuga! Como teve receio de lhe levarem a mal uma manifestação a quem tem uma porta comercial aberta, mandou fazer um cartaz, que pendurou numa azinheira que, logo um pouco acima, dá para a estrada principal.
– E os dizeres?
– Falou em nome de todos, ou de quase todos, ao escrever em letras muito grandes: “O Cabeço é contra a eutanásia (= pena de morte)!”. Não se sabe quem foi, mas houve um magano que, pela calada da noite, passou com uma foice e rasgou uma parte do cartaz. Mas o Sanguessuga tem uma ideia de quem foi e está disposto a tirar satisfações…
– Sem violência, Carlos!
– Evidentemente, Tio Ambrósio! Nós somos pacifistas, mas não somos tolos, e não permitimos que nos comam por tolos!
– Estou a ver que o Cabeço está disposto a defender a vida!
– O Liberato teve uma ideia que não pode pôr em prática como autarca, mas que é capaz de ir por diante. Vamos juntar-nos e mandar imprimir uns centos, ou mesmo uns milhares de autocolantes onde se declara que o portador do dito é respeitador da vida humana desde o seu início primeiro, até ao final, segundo a vontade do Criador.
– Isso não fica barato…
– Vão aparecer patrocinadores, Tio Ambrósio! E, para já, estamos apenas na fase de apresentação de ideias, para tudo estar pronto se vier a ser necessário. Uma coisa é certa! No caso de aqueles que se julgam legítimos representantes do povo português tomarem a iniciativa de fazerem uma lei que retome, embora com palavras menos agressivas, a autêntica pena de morte, cá no Cabeço vamos levantar a voz e dizer que não queremos uma lei destas que, além de perniciosa, é absurda, porque é contra o maior dom que nos foi concedido, que é a vida!
– Eu estou convosco, Carlos! E penso que já é tempo de o povo cristão se manifestar contra algumas iniciativas de alguns grupos que se pensam senhores do país, e que lesam os valores mais autênticos do nosso povo, passando por cima da nossa história e dos princípios que moldaram a alma portuguesa.
– E eles acreditarão que o povo tem alma, Tio Ambrósio?
– É bem possível que não! Mas se o povo não tem alma, onde está a sua identidade?
– Um bom tema para um debate em que participem todos os que queiram levar a sério aquilo que é realmente sério. Não acha, Tio Ambrósio?

AO CALOR DA FOGUEIRA (19-02-2017)

– O Tio Ambrósio, aqui há uns tempos, disse-me que lhe tinham oferecido uma espécie de agenda totalmente em branco, vindo a descobrir que se tratava de um excelente bloco de notas, onde iria apontando alguns pensamentos de livros que fosse lendo, ou mesmo os assuntos que gostaria que nos servissem de tema de conversa aqui ao calor da sua fogueira…
– Não o tenho utilizado muito, talvez por preguiça ou mesmo por um pouquinho de vaidade.
– Essa da vaidade não a entendo num homem que eu sempre tive como modelo de simplicidade, e mesmo de humildade…
– Os homens (e as mulheres, é claro!) nem sempre são por dentro aquilo que parecem por fora…
– Não é o seu caso, Tio Ambrósio! Se vossemecê me vai dizer que é um poço de vaidade e de orgulho, eu não sei se me aguento sem ter um ataque cardíaco…
– Ou um ataque de riso, Carlos! Tu não deves pensar que eu sou algum santo, aureolado de todas as virtudes e mais algumas. Sou um homem honesto, isso sim! Mas pecador e cheio de defeitos, de tal modo que se queres um modelo para a tua vida, o melhor é ires procurá-lo a outro sítio, que por aqui não te safas…
– Gosto desse seu jeito brincalhão, Tio Ambrósio! É sinal que está bem-disposto e que a saúde, graças a Deus, não lhe tem faltado…
– Sabe-o Deus, Carlos! Deus e o Seu servo doutor Secundino que, de vez em quando, me vai sossegando com aquela sua forma optimista de ver a vida e a pobreza das nossas realidades intestinas. Diz que isto é próprio da idade, e que não há razão para não pecar de vez em quando…
– Exagerar um bocadinho, está bem! Pecar é que não, Tio Ambrósio!
– É uma forma de dizer que, em matéria de alimentação, ainda posso cometer um ou outro abuso, mas sempre com as devidas cautelas. É o que eu vou tentando fazer, com pena em vos não poder acompanhar, a ti, ao teu cunhado Acácio, ao Sanguessuga e a todos os outros nossos amigos do Cabeço, por exemplo quando algum de vós se lembra de recordar e até recriar aqueles tempos em que cada família do Cabeço abatia, por esta altura do ano, um ou dois suínos que, depois de acondicionados na salgadeira, eram o governo de uma dona de casa para quase todo o ano…
– O Tio Ambrósio fala-me de cada coisa! Eu não lhe queria contar, Tio Ambrósio! Mas já que vossemecê está a ser tão franco comigo, tenho que lhe confessar que, no princípio deste mês, não resisti à tentação de participar numa coisa dessas. Eu só fui no dia seguinte à matança em casa de uns amigos, no Carapinhal. O Tio Ambrósio sabe aonde é, não sabe?
– Tenho vários amigos por essas bandas, Carlos! Do meu tempo já restam poucos! Mas ficaram os filhos e os netos que, sempre que me vêem, me fazem uma festa e me convidam para passar lá por casa, sobretudo nos anos em que vamos participar na Procissão dos Passos a Miranda, que fica mesmo ali ao lado. Mas, como te digo, eu já procuro livrar-me o mais que posso dessas situações, porque, como me asseverava um senhor Padre que eu conheci muito bem, e que era verdadeiramente um sábio…
– O senhor Padre Nogueira…
– Estás em boa forma para a adivinhação, Carlos! Pois dizia-me esse ilustre clérigo e professor, que só tinha mais uns vinte ou trinta anitos do que eu… dizia-me ele que estômago de velho quer pouca carne.
– Os conselhos dos velhos são verdadeiros tesouros! Quase sempre valem mais que muitas teorias dos novos, Tio Ambrósio! – E por isso eu vou tentando equilibrar essa sabedoria só de experiências feita com a nesga de abertura que o doutor Secundino me concede, com muita benevolência, até porque sabe que eu consigo manter aquele equilíbrio que me permite conviver em todas as situações.
– E com esta conversa toda, não me chegou a dizer se, no seu pequeno caderno de apontamentos, tinha algum assunto para nós falarmos…
– Falamos da vida, Carlos! Tu, se calhar, querias que nós malhássemos em alguns políticos, sobretudo nesses que insistem em levar ao Parlamento assuntos fracturantes da sociedade, como é o caso da legalização da eutanásia, a que eles agora, para não nos ferirem tanto os ouvidos, deram o nome pomposo, mas sempre aviltante, de “morte assistida”.
– É uma das preocupações que me têm acompanhado nestes últimos dias, Tio Ambrósio! Eu sei que é uma obra de misericórdia assistir os doentes, e prestar-lhes todos os cuidados possíveis, mesmo durante a última fase da sua vida. Ou seja: eu sou partidário de “doentes bem assistidos”, mas rejeito declaradamente qualquer forma de “morte assistida”. Como afirma o nosso amigo Liberato, numa frase o sujeito é sempre muito importante. E, na primeira frase, que é a que eu defendo, o sujeito é o doente, é a pessoa humana que, depois de Deus, deve ter sempre em tudo o primeiro lugar. Na outra frase o sujeito é a palavra morte. Trata-se de uma realidade que não podemos ignorar, mas que nos causa calafrios. Agora que, por causa da catequese de adultos, eu leio com mais assiduidade a Sagrada Escritura, não esqueço o texto da primeira carta de S. Paulo aos Coríntios, creio que no capítulo quinze, em que diz que Cristo há de entregar a Deus Pai o Reino restaurado. E acrescenta textualmente que “ é necessário que Ele reine, até que haja posto todos os inimigos debaixo de Seus pés. E o último inimigo a ser destruído será a morte”. Ora, se Cristo veio para destruir a morte, como é que alguém que tenha escutado a Sua Palavra, pode falar de morte assistida?
– Assistida, não, Carlos! Provocada! Eu aprendi, quando era criança, e sempre tenho repetido ao longo da minha já longa carreira, que o homicídio voluntário é um dos pecados mais graves, incluído no elenco daqueles que “bradam aos céus”. Não é agora, por mais que me doirem a pílula, que eu vou mudar de opinião. Sempre fui, sou agora e sempre serei um defensor da vida humana. Basta-me aquela palavra do Deus da Aliança que, no código gravado na consciência de todo o ser humano, incluiu o mandamento “não matarás”!
– Para quem acredita na presença de Deus não são precisas mais razões, Tio Ambrósio!

06/04/2017

AO CALOR DA FOGUEIRA (12-02-2017)

– Um dia destes, um senhor Cónego, que encontrei numa curta passagem por Coimbra, para participar nas exéquias do senhor Padre Frade…
– Podia ter-me dito que ia, Tio Ambrósio! Eu gostava de ter ido consigo, prestar a minha homenagem a esse sacerdote virtuoso e bom, que dedicou grande parte da sua vida a organizar e dirigir a Escola Diocesana de Música Sacra, que muito contribuiu para a renovação da liturgia, e nomeadamente do canto litúrgico na maioria das paróquias da nossa diocese. Como não pude estar presente, lembrei-o ao Senhor nas minhas orações em casa, com a família. Eu sei que não é a mesma coisa, mas o que conta é a intenção…
– Não é bem assim, Carlos! Uma oração feita em casa, com toda a família reunida, é uma das formas mais recomendadas pela Igreja para nos dirigirmos ao Pai do Céu. Penso que nenhum dos Papas dos dois últimos séculos se tenha esquecido de incentivar as famílias a uma oração comum, nomeadamente o rosário…
– È esse o costume que eu sigo lá em casa, Tio Ambrósio! Nem sempre é fácil encontrar um tempo que seja ao gosto de todos, pois os pequenos tentam esquivar-se com a desculpa das matérias que têm que estudar para o dia seguinte. Mas com diálogo lá vamos chegando todos a acordo. E sempre oferecemos um mistério pelos nossos amigos e conhecidos defuntos, lembrando de modo especial algum que nos vai deixando. Foi o que agora aconteceu…
– É de louvar essa tua atitude, Carlos! Tua e da tua família.
– Este tema interessa-me bastante, Tio Ambrósio! Mas fiquei curioso em saber o que é que vossemecê conversou com esse reverendo cónego, lá em Coimbra. Cheira-me a que terá havido alguma referência à minha modesta pessoa…
– Se não houvesse, certamente eu não me teria lembrado de estar a contar-te uma coisa destas, Carlos! E o que acontece até é uma coisa muito simples, pois sua reverência é um leitor bastante atento destas pequenas conversas que aqui temos, quer ao calor da fogueira quer à sombra do castanheiro, e notou que nestes últimos tempos a tua linguagem tem sido um pouco mais rebuscada…
– Pobre de mim, Tio Ambrósio! É verdade que, desde há uns meses para cá, eu tenho tido alguma preocupação em ler bons livros, nomeadamente o melhor deles, que é a Sagrada Escritura. É que, à falta de melhor, o senhor Padre Feliciano encarregou-me de preparar as leituras de domingo e de arranjar um grupo de leitores. Claro que eu preferia um encargo mais simples, como tocar o sino para lembrar ao pessoal que está na hora de saírem de casa.
– Está muito bem entregue, Carlos! E eu tenho notado que esse capítulo tem melhorado bastante, vendo-se que, tanto tu como os demais leitores se preparam atempadamente para a função que são chamados a desempenhar…
– Se calhar é por isso que, depois, na conversa com a mulher, com os filhos e com os amigos, se possa notar alguma evolução no emprego desta ou daquela palavra. De facto, nós, os que fazemos parte do grupo dos leitores, temos o costume de ler em voz alta a leitura que nos cabe e, quando nos aparece pela frente alguma palavra mais difícil, recorremos ao Padre Feliciano ou, se este não está, ao nosso amigo Liberato. Até já uma vez estivemos na eminência de vir incomodar o Tio Ambrósio…
– Não sou a pessoa mais indicada, Carlos! No entanto, fico muito contente em ver que parte do grupo da catequese de adultos tomou à sua conta as leituras da Palavra, e que isso, além de servir para melhorar os vossos conhecimentos religiosos, se nota também na linguagem que usais no dia a dia…
– De tal modo que o senhor Cónego que esteve consigo parece ter estranhado…
– E muito, Carlos! Ele até me perguntou se tu eras a mesma pessoa que, semana após semana, aqui vem trazer-me as novidades cá da terra e comentar os acontecimentos locais, regionais e nacionais…
– E até internacionais, Tio Ambrósio! Porque nós temos que evoluir em conjunto, embora o falarmos desta ou daquela forma, o usarmos termos antigos ou termos mais modernos, não faça de nós pessoas diferentes…
– Faz, Carlos! Faz-nos mais cultos, mais atentos àquilo que se vai passando à nossa volta e até nos abre perspectivas novas para a interpretação dos factos que vão ocorrendo sob o nosso olhar. Porque isto da nossa vida colectiva pode comparar-se a um rio que vai correndo a nossos pés e cujas águas nunca voltam para trás…
– Vão ao seu destino, Tio Ambrósio! Mas agora, com essa intervenção do senhor Cónego, vossemecê deixa-me a magicar se continuam a ter interesse estes nossos encontros dominicais, ou se devemos silencia-los! Sim! Porque eu já me não vejo a passar muito tempo sem vir aqui ter consigo, se mais não for, para darmos dois dedos de conversa. Por mim, devo dizer, que tenho sempre tirado muito proveito neste contacto dominical. Mas não é preciso que isto que nós dizemos venha a público, até porque nem tudo o que nós pensamos e falamos é publicado. Por vezes, se fosse tornado público tudo o que nós conversamos, nem um jornal com dezasseis páginas como o “Correio de Coimbra” (que eu sempre leio com muito agrado) teria espaço disponível para as nossas opiniões, quase sempre convergentes…
– Estás a ver, Carlos? Sem te dares conta, tu empregaste a palavra “convergente” que, digamos assim, é um termo erudito…
– Próprio de doutores que frequentaram a universidade. Não é, Tio Ambrósio?
– Tanto tu como eu frequentámos a universidade da vida, Carlos! E é assim que nos sentimos bem, e vamos continuar a sentir…
– Se Deus nos der vida e saúde, que, juntamente com a paz, é aquilo que eu peço todos os dias para mim e para todos os homens e mulheres dos quatro cantos do mundo.
– Esse é um bom desejo, que eu gostaria que estivesse instalado em todos os corações, pois corresponde à doutrina do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo que diz: “deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz!”.
– Ámen! Tio Ambrósio!
– Até domingo! Vai com Deus, Carlos!

05/04/2017

Venham mais 100 anos!

Quando o Sr. Bispo me pediu para assumir a direcção d’O Amigo do Povo, senti a alegria e, ao mesmo tempo, a pesada responsabilidade de ser chamado a continuar um jornal centenário de tanto significado para a Igreja e para tanta gente. Um jornal popular, como diz o próprio nome, para que a Palavra chegue a todo o povo, informativo e formativo. Apesar de não ser uma tarefa fácil, ao ser chamado a este serviço de evangelização não podia dar outra resposta a não ser: “Eis-me aqui, Senhor!”
É uma responsabilidade difícil assumir a direcção de um jornal que já vem desde 1916. Naquela época conturbada, em que uma vasta imprensa anti-clerical procurava agredir e descredibilizar a Igreja, muitas vezes recorrendo à mais descarada mentira, o Bispo de Coimbra sabia que essa “má imprensa” só se podia enfrentar com uma “boa imprensa”. Este contexto em nasceu O Amigo do Povo, em muitos aspectos, não é muito diferente do actual: as tentativas de desacreditar a fé católica continuam; portanto, há que continuar a anunciar a Verdade. E essa é a melhor forma de ser amigo do povo: levar o povo à Verdade que é Cristo, pela Igreja. Não somos donos da Verdade, porque a Verdade é Cristo e Cristo é Rei e Senhor; mas somos discípulos da Verdade! E Seus porta-vozes.
Se é amigo e se é do povo, então é o jornal do futuro! Resta-me trabalhar, encomendando-me ao Espírito Santo, para estar à altura de tão grande tarefa.
Saúdo e agradeço ao P. Manuel Ventura Pinho, bem como a todos os colaboradores e distribuidores que vão continuar, agora comigo, a Missão. Podem vir mais cem anos, que nós cá estaremos para dar o nosso melhor pelo Reino de Deus.
Pe. Orlando Henriques